quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Saíndo do Útero


Sempre achei que passar dos dez quilômetros para a meia maratona eu teria de fazer um esforço sobre-humano.  Achava que não teria joelho ou que acabaria o fôlego. No fundo sabia que se tratava apenas de um detalhe: os dez quilômetros me eram confortáveis e essa distância eu dominava.

Talvez se acomodar seja a mais fácil das realizações. Não requer prática tampouco habilidade. Basta achar que as coisas estão “boazinhas”, se conformar com os desconfortos e botar na cara a máscara de paisagem. Funciona! E engana-se quem acha que funciona por apenas pouco tempo.

Sim é um mea culpa. Talvez eu tenha demorado um pouco demais pra me lançar ao desafio. Tive algumas lesões, tenho um milhão de compromissos, mas no fundo há uma vozinha que advoga pra acomodação.

Então quando minha vida do passou a virar do avesso a cada três dias e eu teimava com soluções que caminhavam em círculos, me atirei ao improvável. Pensei que se me inscrevesse pra uma prova e gastasse o dinheiro que não tinha seria como apontar um rifle pro meu peito. Exigiria assim uma satisfação do comodismo e dessa sua advogadinha de quinta.

Pra isso, procurei por uma prova que acontecesse a tempo de estar pronta, baseando-se em cálculos, planilhas de treino e intuição. A prova também teria que despertar mais que a vontade de correr.

Então, habemus Buenos Aires. Estaria longe, aproveitaria o feriado num tempo razoável e o dinheiro gasto me impediria de desistir da empreitada. Inscrição feita, rifle engatilhado.

Por sorte, um amigo atleta entendeu onde morava a entrave. Assim que montei minha planilha, ele se ofereceu pra fazer comigo o primeiro treino longo. Achou justa a meta de quinze quilômetros.

Corremos toda a orla do Guarujá e quando atingimos a meta de sete quilômetros e meio acenei a ele que poderíamos voltar. “vamos mais um pouquinho. Viramos no oitavo quilômetro”. Oito quilômetros, oito e meio, quase dando nove e estávamos no fim da linha. Só nos restava voltar. No décimo quilômetro sugeri diminuir o ritmo. “Você está cansada?” acenei que não, porque não estava. Continuamos.

No décimo terceiro quilômetro minhas pernas pesaram, cansaço gritou e só tinha o fôlego. Pedi pra desacelerar e ouvi “Não são suas pernas, é apenas a sua cabeça tentando dizer que você passou do limite habitual. Essa dor não existe. É só o medo de arriscar. Solta o corpo, ouça a música e o controle é seu”.

Na hora me pareceu sem sentido, mas a música era boa e só pensava na respiração. Contava inspira/expira como se fosse meu ofício diário, meu ganha pão. Ouvi o aplicativo dizer “quatorze quilômetros” e antes que percebesse ouvi “quatorze quilômetros e meio”. E então não sentia mais nada. As pernas, o corpo, o cansaço, nada. A voz que dizia para, morreu numa das passadas. Nem vi quando a deixei cair. Definitivamente tinha o controle.

Chegando ao ponto de partida, acumulávamos dezessete quilômetros e meio. “você aguenta seguir até os 21?”. Sim, eu aguentava. Eram apenas mais quatro, o mundo era meu. “Para, então. Agora você sabe que é capaz e tem dois meses pra botar esses quatro quilômetros na conta.”

Não é tão fácil quanto estou fazendo parecer, embora seja mais simples do que se poderia supor. Depende de quantos rifles e quantas vozes estão tentando tomar a torre de controle. É fato que ainda sinto as dores e o cansaço do quilômetro treze quando estou passando por ele, mas já negocio em outros termos. Sabemos quem manda e quem obedece.

Sigo correndo e no fundo é apenas isso que importa. O processo não termina nunca. A linha de chegada é apenas o momento de reflexão para se lançar a uma nova meta. E a nova meta é apenas a deixa para se lançar pra longe desse útero quentinho que é a acomodação.

5 comentários:

Ana Conti disse...

Preciso compra um rifle então. Acho que é isso que me falta.

Dea Conti (a filha) disse...

Um canhão para mim, por favor!!! Estou precisando MUITO!!!

Beijocas à minha filha que venceu a barreira mais difícil: a do seu pensamento.

Allan Souza disse...

Sensacionaaaaal Go Gump \o/ e meus parabéns por quebrar
a barra dos 10KMs, acho que troquei o 38 por um rifle e aos
poucos vou me acostumando com os 10km.

Anônimo disse...

Na sua postagem "Saíndo do Útero" você passa 90% do texto se mostrando derrotista e se não fosse o seu amigo, você se entregaria. Eu hein...

Saindo do útero mesmo nem imagino como você era um bebê preguiçoso, caceta. Caso de livro do recordes: nasce hoje o bebê mais preguiçoso do mundo, mas graças ao amigo, o bebê esta em 2º lugar.

Renata disse...

Não imagina como eu precisava ter lido isso. Estou precisando exatamente de uma injeção de ânimo para sair da minha zona de conforto...um rifle mesmo!
Amei!
E parabéns pela conquista!!!
beijos