sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os bons conselhos da gravidez



Ah a gravidez!

Aquele momento lindo, mágico que você sente dores no ciático, estrias arregaçando seu corpo, peito quase batendo no queixo, andar de pata choca, inchaços, enjoos, refluxos, fome, falta de ar.

Você tem sono quando precisa estar acordada, insônia quando podia estar dormindo, necessidade do xixi quando você acabou de fazer, e com sorte (muita sorte) várias pessoas dispostas a dar suporte, amor, carinho e, claro, “conselhos”.

Os conselhos são a melhor parte, indiscutivelmente. Dos proféticos aos científicos, todo mundo tem algo a dizer sobre o que se deve ou não fazer na gravidez. Mas o que faz do conselho a parte mais legal é que o corpo feminino, acostumado as pataquadas contadas ao longo dos séculos, deu um jeito de bagunçar os hormônios e deixa-los com um grau quase minúsculo de tolerância para poder defender nossa sanidade da palavra alheia.

Assim, quando sua tia sorri passando a mão em sua barriga dizendo que você sente azias porque seu neném é cabeludo, reações químicas ocorrem em frações de segundos e uma resposta sarcástica sobe pelo esôfago em velocidade de cruzeiro para ganhar o mundo. Tem grávida que fala. Tem grávida que não.

Sempre fui dessas que fala.

Além de expurgar a grosseria reprimida, confesso que abusava do sarcasmo criativo. A cada sugestão à gravidez eu apresentava outras soluções em forma de métodos ou rezas alternativas para todos terem certeza de que falávamos sobre absurdos aceitos em apenas alguma parte de universos paralelos.

E conforme a barriga ia crescendo, minha habilidade para respostas mais cretinas e afiadas ia se tornando um talento inexorável. Pra minha sorte o axioma de que não se bate em grávidas se mostrou eficaz. E, assim não havia conselho que passasse impune.

“Olha, nunca deixe sua barriga descoberta, o neném pode sentir frio”
“ah sim, mas o padre da minha igreja disse que era bom resfriar o local mesmo, pois se esta for uma alma que veio do inferno, vai diminuir muito as chances de ser um filhote de demônio”.

“Laura, nunca guarde a chave de casa no peito, ai no sutian enquanto estiver grávida, senão seu filho nasce com o lábio cortado – do tipo leporino”
“Pois é, estamos justamente providenciando pra que isso aconteça. Não sei se você sabe, mas há parentes distantes do meu marido que descendem dos lagartos. Queremos homenageá-los”

“Nossa, sua barriga assim redonda! Aposto que é menina”
“Então...é um menino. Mas ele adora quando escuto Elton John e George Michael. Pode ser que você tenha razão”

“Ual!! Você tem um menino e está grávida de gêmeos? O que vai fazer agora?”
“Ah, simples, vamos esperar nascer e levar pra casa somente o mais bonitinho”

“Ouvi dizer que as mães que ouvem os bebês chorando dentro da barriga terão sempre uma ligação muito forte com os filhos. Você já ouviu seu filho chorar?”
“Chorar ainda não, mas hoje esse lazarento me acordou às cinco horas da manhã recitando lusíadas de camões.”

“Você tem comido bacalhau? Seu médico já deve ter dito a você que deve comer bacalhau todos os dias pro seu peito encher de leite, né?”
“Ah sim, disse. Mas ele é de uma corrente nova. Bacalhau por sêmen. Estudos comprovam que o sêmen do pai do bebe, se engolido uma hora antes do almoço, costuma ser mais eficaz em 78% dos casos para a produção. Mas se o sêmen for congelado, ajuda ainda mais no volume armazenado. Por isso já deixamos congelados no freezer uns vinte potinhos. Mas não se preocupe, esse sorvete que está tomando não estava perto dos potes...eu acho.”

A verdade é simples. Depois de respostas como essas, raras são as chances da conversa engatar segunda marcha para novos conselhos. E nessa hora sempre chega aquele terceiro elemento que faz cara complacente e diz “coitada-ela-está-possuída-pelos-hormônios” enquanto você nem se esforça para sua cara demoníaca ganha contornos épicos de Jack Nicholson em O Iluminado.

Até hoje, quando me escapam sarcasmos mais afiados, costumo colocar a culpa nos hormônios da gravidez. Me utilizo do benefício da gestação gemelar e da alta incidência hormonal da época para dizer que 87,25% das mulheres que tiveram dois no bucho nunca voltaram ao normal.

As pessoas costumam acreditar em qualquer tese que tenha como justificativa os hormônios, fatos que trazem porcentagens como amostra da realidade, toda e qualquer merda encapsulada no hemisfério norte e coisas racionais como “A mulher prenha deve andar, pelo menos uma vez por semana, como um quadrúpede no interior de seu quarto. É que de boa sorte pro neném”.

Ok. Podem culpar meu pragmatismo, mas acredito apenas na capacidade infinita da estupidez humana, na incerteza dos dias que me sucedem e na certeza da morte que me aguarda. Obviamente que também acredito em sarcasmos, ácaros e na cara do Jack Torrance para afastar as pessoas de boa alma com bons conselhos.

5 comentários:

Dea Conti (a filha) disse...

Desse eu me recordo!
E curto de montão, cê sabe.
Bjs

Allan Souza disse...

Já vou deixar de referência
pra Camila,acho que ela vai me espancar hahaha.

ram horizonte disse...

HUA HUA HUA HUA HUA HUA, vc é demais Laura!!! Rachei de rir, obrigado pelo sarcasmo. Bjao

Anônimo disse...

Hahahahaha quem é voce lau_roots? Isso aqui é muito bom

Aline Cichetto disse...

Ai, Lau!.... Morri de rir!! ouvi muito pouco e já to achando muito! com seus exemplos, vi que tudo pode piorar, com o passar dos meses! Espero que meus hormônios me ensinem sua rapidez de pensamento pra criar respostas à altura, como as que li aqui. Se não... fica a dica pro manual, pra auxiliar as gestantes menos criativas! A irritação às vezes embota meu pensamento! Bjo gde!