Ah
a gravidez!
Aquele momento lindo, mágico que você sente dores no ciático,
estrias arregaçando seu corpo, peito quase batendo no queixo, andar de pata
choca, inchaços, enjoos, refluxos, fome, falta de ar.
Você tem sono quando precisa estar
acordada, insônia quando podia estar dormindo, necessidade do xixi quando você
acabou de fazer, e com sorte (muita sorte) várias pessoas dispostas a dar
suporte, amor, carinho e, claro, “conselhos”.
Os conselhos são a melhor parte, indiscutivelmente. Dos proféticos
aos científicos, todo mundo tem algo a dizer sobre o que se deve ou não fazer
na gravidez. Mas o que faz do conselho a parte mais legal é que o corpo
feminino, acostumado as pataquadas contadas ao longo dos séculos, deu um jeito
de bagunçar os hormônios e deixa-los com um grau quase minúsculo de tolerância
para poder defender nossa sanidade da palavra alheia.
Assim, quando sua tia sorri passando a mão em sua barriga
dizendo que você sente azias porque seu neném é cabeludo, reações químicas
ocorrem em frações de segundos e uma resposta sarcástica sobe pelo esôfago em
velocidade de cruzeiro para ganhar o mundo. Tem grávida que fala. Tem grávida
que não.
Sempre fui dessas que fala.
Além de expurgar a grosseria reprimida, confesso que abusava
do sarcasmo criativo. A cada sugestão à gravidez eu apresentava outras soluções
em forma de métodos ou rezas alternativas para todos terem certeza de que
falávamos sobre absurdos aceitos em apenas alguma parte de universos paralelos.
E conforme a barriga ia crescendo, minha habilidade para
respostas mais cretinas e afiadas ia se tornando um talento inexorável. Pra
minha sorte o axioma de que não se bate em grávidas se mostrou eficaz. E, assim
não havia conselho que passasse impune.
“Olha, nunca deixe sua barriga descoberta, o neném pode
sentir frio”
“ah sim, mas o padre da minha igreja disse que era bom resfriar
o local mesmo, pois se esta for uma alma que veio do inferno, vai diminuir
muito as chances de ser um filhote de demônio”.
“Laura, nunca guarde a chave de
casa no peito, ai no sutian enquanto estiver grávida, senão seu filho nasce com
o lábio cortado – do tipo leporino”
“Pois é, estamos justamente providenciando pra que isso aconteça.
Não sei se você sabe, mas há parentes distantes do meu marido que descendem dos
lagartos. Queremos homenageá-los”
“Nossa, sua barriga assim redonda! Aposto que é menina”
“Então...é um menino. Mas ele adora quando escuto Elton John e
George Michael. Pode ser que você tenha razão”
“Ual!! Você tem um menino e está grávida de gêmeos? O que vai
fazer agora?”
“Ah, simples, vamos esperar nascer e levar pra casa somente o mais
bonitinho”
“Ouvi dizer que as mães que ouvem
os bebês chorando dentro da barriga terão sempre uma ligação muito forte com os
filhos. Você já ouviu seu filho chorar?”
“Chorar ainda não, mas hoje esse lazarento me
acordou às cinco horas da manhã recitando lusíadas de camões.”
“Você tem comido bacalhau? Seu médico já deve ter
dito a você que deve comer bacalhau todos os dias pro seu peito encher de leite,
né?”
“Ah sim, disse. Mas ele é de uma corrente nova.
Bacalhau por sêmen. Estudos comprovam que o sêmen do pai do bebe, se engolido
uma hora antes do almoço, costuma ser mais eficaz em 78% dos casos para a
produção. Mas se o sêmen for congelado, ajuda ainda mais no volume armazenado.
Por isso já deixamos congelados no freezer uns vinte potinhos. Mas não se
preocupe, esse sorvete que está tomando não estava perto dos potes...eu acho.”
A verdade é simples. Depois de respostas como
essas, raras são as chances da conversa engatar segunda marcha para novos
conselhos. E nessa hora sempre chega aquele terceiro elemento que faz cara complacente
e diz “coitada-ela-está-possuída-pelos-hormônios” enquanto você nem se esforça para
sua cara demoníaca ganha contornos épicos de Jack Nicholson em O Iluminado.
Até hoje, quando me escapam sarcasmos mais afiados,
costumo colocar a culpa nos hormônios da gravidez. Me utilizo do benefício da
gestação gemelar e da alta incidência hormonal da época para dizer que 87,25%
das mulheres que tiveram dois no bucho nunca voltaram ao normal.
As pessoas costumam acreditar em qualquer tese
que tenha como justificativa os hormônios, fatos que trazem porcentagens como
amostra da realidade, toda e qualquer merda encapsulada no hemisfério norte e coisas
racionais como “A mulher prenha deve andar, pelo menos uma vez por semana, como um
quadrúpede no interior de seu quarto. É que de boa sorte pro neném”.
Ok. Podem culpar meu pragmatismo, mas acredito apenas na
capacidade infinita da estupidez humana, na incerteza dos dias que me sucedem e
na certeza da morte que me aguarda. Obviamente que também acredito em sarcasmos,
ácaros e na cara do Jack Torrance para afastar as pessoas de boa alma com bons conselhos.

5 comentários:
Desse eu me recordo!
E curto de montão, cê sabe.
Bjs
Já vou deixar de referência
pra Camila,acho que ela vai me espancar hahaha.
HUA HUA HUA HUA HUA HUA, vc é demais Laura!!! Rachei de rir, obrigado pelo sarcasmo. Bjao
Hahahahaha quem é voce lau_roots? Isso aqui é muito bom
Ai, Lau!.... Morri de rir!! ouvi muito pouco e já to achando muito! com seus exemplos, vi que tudo pode piorar, com o passar dos meses! Espero que meus hormônios me ensinem sua rapidez de pensamento pra criar respostas à altura, como as que li aqui. Se não... fica a dica pro manual, pra auxiliar as gestantes menos criativas! A irritação às vezes embota meu pensamento! Bjo gde!
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