segunda-feira, 24 de novembro de 2008

As paixões que não se explicam

futebol blog

Faltando duas rodadas para acabar o campeonato brasileiro, já é possível dizer com certeza quem será o campeão. Não será o meu time, pois ao longo da corrida cometeu alguns erros – imperdoáveis ou não, todos parte do jogo, literalmente.

Mas eram tantos os candidatos ao posto que, na minha conclusão, irá se sagrar campeão não o melhor (acho que há muito que não se vê "o melhor" como aquele time do Palmeiras de 96, do São Paulo de 92, do Flamengo de 83 ou até do Santos de 2002), mas o que errou menos e se beneficiou mais dos erros alheios (os da arbitragem, inclusive).

Contudo, competição é assim mesmo, apenas um ganha enquanto outros muitos perdem e a diversão fica por conta da comemoração. Espezinhar o torcedor do time adversário faz parte, aliás, é a melhor parte. Gritar, vestir a camisa, hastear a bandeira, ver e rever os gols, guardar o pôster mequetrefe que vem no jornal do dia seguinte. É previsível, está dentro do contexto. É saudável e, acima de tudo, necessário.

Mas tem o outro tipo de comemoração que é a daquele torcedor que não se contenta em tripudiar, mas racionaliza a paixão argumentando que por ser o seu time o campeão nenhum outro vale a pena. Com mais uma vitória do São Paulo já apareceram alguns desse tipo no caminho, o que me faz lembrar que foi exatamente essa atitude que ratificou minha renúncia pelo São Paulo há alguns anos.

Explico. Houve um tempo em que eu brincava de barbie e o futebol, com exceção da seleção, não me interessava. Era começo dos anos oitenta, e se me perguntavam para que time eu torcia, apenas olhava pra minha mãe e sinalizava que concordava com sua preferência pelo Corinthians.

Foi quando, já no início dos 90, minha turma do prédio rateou o salão para que todos pudessem assistir uma partida do São Paulo válida pelo mundial. Seria a conquista do primeiro título. Compareci, e a princípio simpatizei com aquele time - como não simpatizar com um time que tem Raí?

A vitória veio e, conseqüentemente, a comemoração. O número de são-paulinos no recinto era superior, embora houvessem torcedores diversos. A reação dos vitoriosos foi instantânea: era moda dizer que “torcer pro São Paulo é uma grande moleza” e logo o argumento de que os perdedores somente assim o eram por suas más escolhas, equívocos, irracionalidade ou até mesmo burrice. Como não torcer para aquele time!?!

No mesmo instante a simpatia que havia sentido se esvaiu. A arrogância era patética. Todos aqueles meus amigos imbuídos de uma superioridade que lhes parecia ter sido conferida por algo predeterminado, divino. Senti pena daqueles que eram perdedores sem que ao menos seus times tivessem entrado em campo.

Dizem que cada vez que um time ganha acaba arrebanhando centenas, milhares de torcedores órfãos. Não da para explicar a minha ojeriza: eu acabara de ver um time sagrando-se campeão do mundo e ao mesmo tempo compreendia que não havia qualquer possibilidade de compartilhar aquela alegria.

Pouco tempo depois fui a um jogo do Palmeiras com amigas. Fui para não perder a balada, despretensiosamente. E então, foi amor a primeira vista. Minha identificação com a camisa, com o time, com a torcida que cantava e vibrava. E nem era um jogo decisivo. Paixão não se explica, apenas sente-se. E de forma arrebatadora. É incondicional.

Ao contrário do que era vociferado pelos são-paulinos enlouquecidos pela vitória, não conseguia sentir que estava tomando o caminho errado. Não posso me arrepender da escolha, pois não escolhi. Fui escolhida.
Falo disso hoje, pois ontem fui assistir ao jogo do meu time, já sem chances de ser campeão nessa temporada. Não houve sensação de vazio, pelo contrário. Foi alegre, bonito, acolhedor. Foi leve, no sentido mais amplo e positivo do termo.

Não pretendo fazer disso minha resposta aos muitos torcedores que intencionam racionalizar aquilo que foi feito justamente para iludir, sonhar e até suprir o sentimento belicoso. Mas acho que pode servir de desabafo àqueles que ainda gastam seu precioso tempo argumentando o porquê de seu time ser o melhor.

Gostaria, também, que fosse resposta àqueles que fatalmente deixarão seus comentários sem profundidade após ler meu texto, mas como sei que não servirá sequer como reflexão, deixo ao menos, e antecipadamente, meu lamento.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O ESPAÇO QUE OCUPA O VAZIO

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Com tobogã e andar vazio, 28ª Bienal de SP é aberta para o público

A 28ª Bienal de São Paulo foi aberta neste domingo (26) para o público. A mostra, que aconteceu no Ibirapuera, segue até 6 de dezembro. A entrada é gratuita. 

Os visitantes encontram uma área de serviços no primeiro andar, além de dois projetos de artistas participantes, como a obra “Talismã”, do norte-americano Paul Ramírez Jonas. Lá, o visitante poderá trocar a chave de sua casa pela chave que abre a porta do pavilhão da Bienal.

O segundo andar inteiro vai permanecer completamente vazio. “A idéia é propor uma reflexão sobre o sistema das Bienais”, disse Ivo Mesquita, um dos curadores da mostra. “A ocupação do espaço é uma questão fundamental.” Para Ana Paula Cohen, outra curadora, a iniciativa é importante também para que o visitante tenha a oportunidade de observar a estrutura do edifício.

Já no terceiro piso haverá trabalhos que abordam de alguma maneira aspectos da história da Bienal de São Paulo, além de uma biblioteca e um espaço para conferências

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O vazio é o nada. É ausência de tudo. É a falta de preenchimento de algo. É oco, inodoro, incolor e quiçá insípido. É desprovido de conteúdo. É vazio.

Um tanto anacrônico considerar a proposta do vazio na 28º Bienal de Artes de São Paulo sendo algo de vanguarda. A todo o momento somos estimulados a lidar com a complexidade do múltiplo, o acúmulo material e intelectual, o preenchimento do tempo e do espaço a fim de suprir as necessidades existentes. Somos impulsionados ao consumo. A satisfação do ser está intimamente ligada ao ter. A felicidade é moeda de troca: só é feliz aquele que se realiza ao mesmo tempo na vida pessoal e profissional.

Quando há o vazio, há a impressão de que algo saiu errado. Logo somos levados a crer que os objetivos não foram alcançados; falhamos. Existe uma incompetência subtendida no conceito do vazio que chega a superar a própria percepção da ausência. Pode-se dizer que a angustia que toma conta de nossos sentidos chega ser um alento, pois ela preenche a sensação do nada que havia até então.

Não pretendo dissertar sobre as pretensões artísticas do Curador da Bienal ao propor esse debate, até porque estou a anos luz de ser uma entendida do assunto. Segundo Ivo Mesquita, atual curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a intenção do vazio é chamar para uma conversa. "Resolvi assumir e dar a cara para bater. É uma Bienal bastante polêmica e entendo se ela for controversa. Não haverá exposição no sentido formal. Odiaria ter que fazer uma exposição tampão, convidando artistas sem fazer uma pesquisa. Tive dez meses para preparar a Bienal, quando o prazo normal é dois anos. Fiz o que pude no tempo que tenho", disse.

Mas acho que a proposta vai alem. A questão primordial é saber o quanto esse “Vazio” incomoda? Pelo espaço que ocupou na crítica especializada, superando até mesmo aquele destinado a falar das artes ali expostas, sou forçada a concluir que ocupou uma dimensão bastante desconfortável.

Milan Kundera expõe sobre o assunto maravilhosamente bem quando escreve “O drama da vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos”. Mas quando o drama é configurado sobre o vazio, quando não há o tal peso e sim a sua ausência, não sabemos como proceder “(...) Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser”.

Por isso o peso do Vazio é tão insuportável. Não aprendemos ainda a lidar com ele: o inimigo invisível. Então criamos um milhão de moinhos de vento para dar visibilidade aos nossos dramas e lutarmos em termos de igualdade.

O vazio nos afronta, nos desafia a todo o momento a sermos criativos, a pensarmos e a olharmos para nós mesmos sem espelhos. Isso seria ótimo se não fossem os efeitos colaterais como o esse estímulo para preenche-lo com um sem número de objetos e informações desnecessárias. Então, paradoxalmente, a cultura se esvai nessa monstruosa quantidade de produções, frases e criações em série. Somos, ao final, desguarnecidos por essa avalanche de conceitos e formas, que nada nos acrescenta ao passo que nos usurpa de contemplarmos a insustentável leveza do Vazio.

OBS.: Não saberia dizer, mas tenho a impressão que a cada ano que passa os enfeites de natal são colocados a mostra cada vez mais cedo, como se de alguma forma eles pudessem ocupar o restante do ano que falta para acabar. Talvez são nessas pequenas coisas que o vazio se anuncia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

IMPRESSÕES DE MIM MESMA

collage copy 

Nasci no dia de todos os santos. Acendo vela pra todos eles, mesmo não sendo católica. Cresci acreditando ser parte de uma experiência, onde pessoas descontroladas, impulsivas  e com lampejos de racionalidade brigavam pelo controle do meu corpo e da minha mente, assim como no filme “quero ser John Malkovich”. Com o tempo, passei a fingir não acreditar mais nesse devaneio. Com o tempo também passei a desconfiar da realidade.

Sonhei que seria muitas coisas. Alimentei expectativas.Veio o inesperado e descobri que não sonho mais em ser: apenas sou, sem me esgotar em definições. Mesmo assim não parei ainda de sonhar.

Não me engano com frases. O trabalho não dignifica o homem nem Deus ajuda aquele que madruga. Também não creio que devemos ser Romanos apenas por estarmos em Roma.

Não entendo de vinho. Não o cheiro  nem  o chacoalho. Tomo e se ao paladar me bastar, prossigo bebendo. Na cozinha, subverto as receitas. Não sigo regras. Estradas sinuosas não me deixam dormir. E se todos os caminhos nos levarem mesmo a Roma, só quero me sentar à janela para admirar a paisagem - com a única certeza, apenas, de não me comportar como romano.

Adoro palavras. Sou prolixa ao extremo. Mas me atrai aqueles que sabem quando e como calar. Usa-las com precisão é uma arte que aprecio.

Gabô, Saramago, Guimarães sempre me levam às lágrimas porque fazem bom uso das palavras. Eles me roubam o ar com extrema facilidade. Meu Vô também tem conseguido o mesmo. Mas não apenas com palavras.

Ser mãe é olhar pra fora do umbigo; é ausentar-se de si mesma ao mesmo tempo em que somos, paradoxalmente, nós mesmas com a maior intensidade.

Não há melhor perfume do que cheiro de chuva no verão. Não há orgasmo tão intenso quanto ao gol do título. Não há som que se compare ao interstício primordial chamado silêncio. Não há melhor silêncio do que aquele compartilhado, quando tudo já está entendido e acertado e nada mais precisa ser dito.

Não há melhor fase na vida do que os trinta, pois é quando descobrimos que a melhor fase é aquela que estamos vivendo.

Não vivo mais a dúvida. Aceito-a como parte de mim. Assim como minhas loucuras, meus desejos. Não aceito, apenas, minhas preferências, Vivo-as como sendo parte de minha essência. Café só se for amargo. Comida, apimentada. Amigo, incondicional. Amor, só acompanhado de paixão. Não gosto de morno. Aprecio o quente e o frio em seus extremos.

Aos dias que me restam, coleciono planos, metas, esperanças e surpresas. Mas como é mesmo o inesperado, que muda a vida, aguardo-o com resignação. Aos dias que já foram, contam apenas as memórias distorcidas das palavras que escrevo, de pessoas que aqui estavam e hoje não estão mais. Dos acontecimentos que me fizeram e marcaram. Apenas fragmentos. Nunca os destroços.

Quanto a esse momento, satisfaço-me apenas em dizer que se me apetecer, no próximo minuto mudo tudo. Apago esse texto e escrevo outro. Não por frivolidade, mas pela simples sensação de estar viva.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O PROTOCOLO DA FÉ

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Der Spiegel -13/10/2008 - Controvérsia sobre Pio 12 se intensifica: Santidade para o papa do Holocausto?

O papa Bento 16 alimentou na quinta-feira passada as especulações sobre a possível beatificação do papa Pio 12, criticado com freqüência por não ter feito o suficiente para combater o Holocausto. O Vaticano tem trabalhado duro para melhorar a imagem popular de Pio.
O papa Bento 16 lançou na terça-feira uma saraivada de argumentos em defesa de Pio 12. Falando durante uma missa na Basílica de São Pedro em comemoração ao 50º aniversário da morte de Pio, Bento disse que o pontífice, que se tornou papa em 1939 logo antes do irromper da guerra, "trabalhou em silêncio e em segredo" durante o conflito "para evitar o pior e salvar o maior número de judeus."
Entretanto, nem todo mundo é tão otimista quanto à perspectiva de santificação de Pio 12. O rabino chefe da cidade de Haifa (em Israel), She'ar Yashuv Cohen, que na segunda-feira se tornou o primeiro judeu a falar diante do concílio de bispos do Vaticano, disse que muitos judeus estavam descontentes em relação a Pio.
Outros não foram tão diplomáticos. Num livro de 1999 chamado "Hitler's Pope" ["O Papa de Hitler"], o escritor britânico John Cornwell documentou o papel de Pio antes de se tornar papa, na negociação do "Reichskonkordat", tratado assinado entre a Alemanha Nazista e a Igreja Católica em 1933. Muitos historiadores argumentaram que esse acordo fornecia ao regime nazista um grau substancial de legitimidade internacional.
O jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, publicou na terça-feira um artigo de página inteira elogiando os esforços de Pio durante a 2ª Guerra Mundial. O jornal também incluía um texto escrito pelo secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone. "Se ele tivesse feito uma intervenção pública, teria colocado em perigo a vida de milhares de judeus, que, sob suas ordens, foram escondidos em 155 conventos e monastérios apenas em Roma", escreveu Bertone.

Antes mesmo de comentar a notícia, preciso me posicionar quanto às minhas convicções. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, posso garantir que não sou ímpia, mas tenho aversão a ascetas. Não faço o sinal da cruz quando passo por igrejas ou cemitérios, e não suporto os que fazem e a partir deste ato acreditam-se “pessoas do bem”.

Exercito minha espiritualidade, mas há muito que eliminei a igreja como interlocutora de meus questionamentos para com Deus. Não suporto pensar que a liturgia seja mais importante que a crença. Por isso, abomino todo o arcabouço burocrático da instituição.

E por falar em burocracia, a mais nova preocupação de Bento XVI é a propor ao mundo uma releitura do pontificado de Pio XII, usando como subterfúgio sua beatificação. Já acho por si só canonizações e beatificações estúpidas; meras tentativas de embalsamar efemérides das grandes figuras eclesiásticas; muita aparência para pouca essência.

Porém, neste caso a beatificação é muito mais significativa. Não se trata de apagar o passado daquele que jamais ousou falar qualquer coisa sobre as atrocidades nazistas, mas ressaltar a figura de um santo homem que teria usado o silêncio para salvar vidas.
Não sou contra releituras de episódios da história. Até me comovo quando personagens são reconsiderados e suas intenções julgadas de modo adverso originando novas dimensões, novos paradigmas. Galileu, oras! Mas estão criando factóides. Querem escamotear um episódio constrangedor, e ainda na melhor das hipóteses reconstruir a imagem de um Papa que, dizem alguns, compactuou com os alemães do terceiro reich.

Não me atrevo a julgar os motivos do silêncio eclesiástico, mas ouso opinar no sentido mais mundano. Além do (desconfia-se) antisemitismo cultuado em silêncio pelo Papa Pio XII, há a sua humana mesquinharia, serena pequenez e a segurança de ser tão somente platéia em meio a um espetáculo de horror.

Inevitável não lembrar dos dizeres de Bertolt Brecht “Primeiro eles vieram buscar os comunistas. Não falei nada porque não era comunista. Então vieram buscar os judeus.
Não falei nada porque não era judeu. (…) Finalmente vieram me buscar. Quando isto aconteceu, não havia ninguém para falar.” Claro que o nazista jamais ousariam a buscar o Papa, muito embora também não acredite que viriam ao encalço dos católicos em represália. Mas em se tratando de Hitler, não apostaria tão alto. Até se justificaria essa boa intenção.

Mas a verdade é que não acredito nas boas intenções. Não acredito também que se o Papa tivesse se pronunciado, como garantem hoje rabinos e intelectuais judeus, algo teria sido diferente. O que acredito é que em se tratando do Papa, jamais poderia ter colocado seu trono em tão alto muro e sentar sobre ele como se deitado em berço esplêndido estivesse. Era sua obrigação dizer algo. Acredito também que os mesmos rabinos e intelectuais judeus que se pronunciam tão categoricamente contra a beatificação, são os mesmos que se calam diante das atrocidades cometidas contra palestinos.

Mas no fundo acredito mesmo que a boa intenção do Nazi-Pope II (Bento XVI para os mais íntimos) não é nem de perto um gesto benevolente para com a memória de seu antecessor, mas apenas a garantia da perpetuação do papado em vida e da sua santidade em morte. (A chama da vela que reza/Direto com santo conversa/Ele te ajuda te escuta/Larara…)

domingo, 5 de outubro de 2008

OS CEGOS QUE NÃO QUEREM VER

a cegueira

Federação de cegos dos EUA pede boicote a "Ensaio sobre a Cegueira"

Los Angeles -1 out - A Federação Nacional de Cegos (NFB), a maior organização de cegos dos Estados Unidos, anunciou hoje mobilizações contra o filme "Ensaio sobre a Cegueira" em sua estréia por considerar que retrata os portadores de deficiência visual como depravados.

O filme, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e que chegará aos cinemas americanos no dia 3 de outubro, é baseado no livro "Ensaio sobre a cegueira" do escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, e relata o caos que haveria na sociedade se todo o mundo ficasse cego de repente.

A obra segue fielmente a trama de Saramago, que pretende gerar uma reflexão sobre os padrões de comportamento e a moral do ser humano, e como esses se modificariam se passassem por uma situação limite.

O enfoque desta história, no entanto, irritou a NFB às vésperas da estréia do longa-metragem nos Estados Unidos. "Os cegos aparecem no filme como incompetentes, sujos, viciados e depravados. São incapazes de fazer as coisas mais simples, como se vestir, se lavar e encontrar o banheiro. A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver", disse Marc Maurer, presidente da NFB em comunicado.

Ao ler a notícia pensei instantaneamente “pior cego é aquele que não quer ver”, mas mesmo para tamanha bizarrice essa frase ainda seria um precário chavão. Tal como o livro de José Saramago, o filme Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles traz inúmeras metáforas e alegorias, sendo que a mais explícita é aquela que retrata toda humanidade como cegos e seu egoísmo e mesquinharia como imundice e escatologia.

Teríam os cegos se ofendido, na realidade, pela sua condição de deficientes visuais ou em seu âmago por serem tão humanos em última instância? Há tanto para explorar na fábula de Saramago que acreditava não ser possível haver espaço para banalidades como essa interpretação tão chula e "ao pé da letra".

O protesto é tão infeliz que mesmo sugerindo ser a tal cegueira branca do filme algo plausível, o organizador do boicote, o presidente da fundação de cegos, a confunde com sua deficiência afirmando que “A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver” .

É perceptível o contra-senso, pois o filme não trata dos cegos que normalmente fazem coisas do cotidiano mas de pessoas acometidas por uma cegueira anormal e que são obrigadas a se confinarem em um lugar que não conhecem geograficamente. O filme é sobre pessoas que jamais foram cegas e não sabem se o serão pelo resto da vida. O boicote vale-se de uma acusação tão absurda que não vale o tempo gasto para formular essa argumentação; apenas há que se lamentar. E muito!

Em uma resenha sobre o livro do autor português, o escritor e jornalista Marcelo Coelho diz “(O Ensaio Sobre a Cegueira) é como um grito de desespero; só que Saramago acha importante gritar o mais alto que possa, por saber que está diante de um público de surdos; (...) usando da ironia para reafirmar sua confiança de que ninguém é tão surdo a ponto de não perceber sua sutileza quando a usa, com a voz em falsete. Nessa confiança, há otimismo. Mas a sutileza em falsete é mais brutal do que sutil, porque o pessimismo a governa”. Resta-me apenas concluir que além de cegos estão surdos, e vivendo em uma fábula onde só há espaço para o literal e nenhum para o literário. Espero aqui não ofender os surdos, exceto aqueles que se fazem de "ouvidos moucos".

Seria cômico se todas as circunstâncias fossem levadas em consideração, se todo o cenário fosse avaliado. Esta associação de cegos é dos Estados Unidos, país que além de estar às vésperas de uma eleição presidencial, estão imersos em uma crise financeira que mudará os paradigmas entre a relação do Estado e mercado. Com o perdão da expressão, mas será que eles não estão vendo o que está acontecendo?

Ao que tudo indica, os cegos tentam se inserir no contexto do políticamente correto, dos danos morais judiciais sempre convertidos em dólares, da reinvindicação da igualdade sem desiguais, da hipocresia que habita o consciente coletivo e do respeito a minoria não porque deve ser algo genuino, mas porque é uma dívida social que será sempre impagável.

Toda essa história de protesto e mobilização apenas corrobora a tese do ser humano que tem a mesquinhez disfarçada, a escatologia recatada e morbidez prudente, mas que não é vista porque mesmo para aqueles que não são cegos quando olham não vêem, quando vêem não enxergam e quando enxergam nunca reparam. Afinal, somos todos realmente (e quase literalmente) cegos.

Obs.: abaixo, a opinião mais importante sobre o filme