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| foto: Leo Barrilari |
Não vou adentrar ao mérito e às inúmeras implicâncias que tenho para com este nobre cavalheiro que usa chapéu panamá, é misógino e preconceituoso e escreve para aquela revista que, se eu comprasse, usaria para coletar os dejetos de meus cachorros. Costumava apenas me opor ao seu olhar indignado de cidadão do bem com aquele viés escatológico-chic.
Mas nesse texto propagando impropérios contra os Talibikers, ele abusou por exigir do leitor um grande esforço para a compreensão da sua lógica. Ao lê-lo, não consegui ver nada além de uma criança mimada ou alguém com senilidade precoce impedida de consumar seu desejo.
Na verdade sempre olho com desconfiança aqueles que, ao se sentirem prejudicados com protestos, criticam o ato em si. Entendo ser ônus do protesto que todos sejam forçados – com todas as implicações negativas que a palavra carrega – a olhar para a situação que se põem em evidência. Parar a cidade por alguns minutos de nossas vidas para realçar a agressividade do trânsito paulistano já seria digno, ainda que não tivesse ocorrido a morte de uma garota. Protestos nos forçam a olhar pra algo odioso que nosso cotidiano abafa, camufla como sendo normal. Manifestações fazem o coletivo amadurecer, a pensar a própria relevância dessas questões inclusive.
Países de primeiro mundo têm suas ruas paralisadas por questões menos ou mais importantes também. Ao contrário da Alemanha de 1930, como compara o boquirroto jornalista, protestar é a tendência do milênio (saberia disso caso tivesse lido a revista TIMES e visto que foi eleito um “manifestante” como personalidade do ano). Só no último ano, poderia citar inúmeros protestos ocorridos no mundo passando pela a Praça Tahrir, todo mundo árabe, Wall Street e outros cantos do Mundo ocidental. Todos protestando. Todos eles na contramão atrapalhando o trânsito.
Mas não bastava ser incoerente, era preciso ser ridículo. Entre caçoar das roupas coloridas dos ciclistas e relegar a questão da briga pelo espaço público como sendo de menor importância – porque qualquer questão que não seja a sua questão é de menor importância – ele confunde conceitos, se intitula no direito de protestar porque seu protesto não atrapalha ninguém e se chama de antifascista num climão de “pronto, falei”.
Por fim, Reinaldinho também sugere em seu texto que os ciclistas façam, além de sofátivismo no facebook, petições às autoridades requerendo providências. Burocracias que nada têm a ver com a tentativa de sensibilizar motoristas, pedestres, ciclistas que passam por cima de quem quer que seja dependendo do tamanho do seu veículo. A velha história de grandes intimidando os pequenos – tire essa frase do contexto e veja quantas situações ela descreve.
Não acredito que apenas ciclistas se beneficiariam com cordialidade e respeito no trânsito. Não acredito em protestos em “praças ou parques”, lugares remotos, com finalidade recreativa, assim como não acredito em manifestações organizadas, assépticas, comportadas. Protestos “do bem”.
Acredito em debate acalorado e pessoas indignadas. Acredito no direito de ir e vir tanto quanto acredito no direito a livre manifestação (ambos protegidos pela constituição do Tio Rei). Acredito que mesmo os Talibikers sendo minoria devem ser ouvidos.
E assim, falando em leitura e salvação, aproveito este grandioso texto do Rei, aqui impresso sobre minha mesa, para dar-lhe a destinação correta. Vou ali retirar a fedentina deixada pelos cachorros no meu quintal. Vamos torcer pra que a merda recolhida não seja aviltada por essas palavras como fomos nós, leitores menos assíduos de Rei Naldo Aze.V.do.


