Faltando duas rodadas para acabar o campeonato brasileiro, já é possível dizer com certeza quem será o campeão. Não será o meu time, pois ao longo da corrida cometeu alguns erros – imperdoáveis ou não, todos parte do jogo, literalmente.
Mas eram tantos os candidatos ao posto que, na minha conclusão, irá se sagrar campeão não o melhor (acho que há muito que não se vê "o melhor" como aquele time do Palmeiras de 96, do São Paulo de 92, do Flamengo de 83 ou até do Santos de 2002), mas o que errou menos e se beneficiou mais dos erros alheios (os da arbitragem, inclusive).
Contudo, competição é assim mesmo, apenas um ganha enquanto outros muitos perdem e a diversão fica por conta da comemoração. Espezinhar o torcedor do time adversário faz parte, aliás, é a melhor parte. Gritar, vestir a camisa, hastear a bandeira, ver e rever os gols, guardar o pôster mequetrefe que vem no jornal do dia seguinte. É previsível, está dentro do contexto. É saudável e, acima de tudo, necessário.
Mas tem o outro tipo de comemoração que é a daquele torcedor que não se contenta em tripudiar, mas racionaliza a paixão argumentando que por ser o seu time o campeão nenhum outro vale a pena. Com mais uma vitória do São Paulo já apareceram alguns desse tipo no caminho, o que me faz lembrar que foi exatamente essa atitude que ratificou minha renúncia pelo São Paulo há alguns anos.
Explico. Houve um tempo em que eu brincava de barbie e o futebol, com exceção da seleção, não me interessava. Era começo dos anos oitenta, e se me perguntavam para que time eu torcia, apenas olhava pra minha mãe e sinalizava que concordava com sua preferência pelo Corinthians.
Foi quando, já no início dos 90, minha turma do prédio rateou o salão para que todos pudessem assistir uma partida do São Paulo válida pelo mundial. Seria a conquista do primeiro título. Compareci, e a princípio simpatizei com aquele time - como não simpatizar com um time que tem Raí?
A vitória veio e, conseqüentemente, a comemoração. O número de são-paulinos no recinto era superior, embora houvessem torcedores diversos. A reação dos vitoriosos foi instantânea: era moda dizer que “torcer pro São Paulo é uma grande moleza” e logo o argumento de que os perdedores somente assim o eram por suas más escolhas, equívocos, irracionalidade ou até mesmo burrice. Como não torcer para aquele time!?!
No mesmo instante a simpatia que havia sentido se esvaiu. A arrogância era patética. Todos aqueles meus amigos imbuídos de uma superioridade que lhes parecia ter sido conferida por algo predeterminado, divino. Senti pena daqueles que eram perdedores sem que ao menos seus times tivessem entrado em campo.
Dizem que cada vez que um time ganha acaba arrebanhando centenas, milhares de torcedores órfãos. Não da para explicar a minha ojeriza: eu acabara de ver um time sagrando-se campeão do mundo e ao mesmo tempo compreendia que não havia qualquer possibilidade de compartilhar aquela alegria.
Pouco tempo depois fui a um jogo do Palmeiras com amigas. Fui para não perder a balada, despretensiosamente. E então, foi amor a primeira vista. Minha identificação com a camisa, com o time, com a torcida que cantava e vibrava. E nem era um jogo decisivo. Paixão não se explica, apenas sente-se. E de forma arrebatadora. É incondicional.
Ao contrário do que era vociferado pelos são-paulinos enlouquecidos pela vitória, não conseguia sentir que estava tomando o caminho errado. Não posso me arrepender da escolha, pois não escolhi. Fui escolhida.
Falo disso hoje, pois ontem fui assistir ao jogo do meu time, já sem chances de ser campeão nessa temporada. Não houve sensação de vazio, pelo contrário. Foi alegre, bonito, acolhedor. Foi leve, no sentido mais amplo e positivo do termo.
Não pretendo fazer disso minha resposta aos muitos torcedores que intencionam racionalizar aquilo que foi feito justamente para iludir, sonhar e até suprir o sentimento belicoso. Mas acho que pode servir de desabafo àqueles que ainda gastam seu precioso tempo argumentando o porquê de seu time ser o melhor.
Gostaria, também, que fosse resposta àqueles que fatalmente deixarão seus comentários sem profundidade após ler meu texto, mas como sei que não servirá sequer como reflexão, deixo ao menos, e antecipadamente, meu lamento.

