quinta-feira, 8 de março de 2012

As Bicicletas Ativistas e os Escatológicos-chic

foto: Leo Barrilari
Foi um texto do Reinaldo Azevedo que me despertou. Sim, o infame Reinaldo Azevedo. Ele se indignava com o protesto dos ciclistas, a quem chamava carinhosamente de Talibikers, porque tomavam a Avenida Paulista de assalto impedindo seu direito constitucional de ir e vir. Reinaldo Azevedo tinha o importante compromisso de ir a Livraria Cultura e folhear livros e a morte de uma ciclista pela manhã atrapalhou seus planos.

Não vou adentrar ao mérito e às inúmeras implicâncias que tenho para com este nobre cavalheiro que usa chapéu panamá, é misógino e preconceituoso e escreve para aquela revista que, se eu comprasse, usaria para coletar os dejetos de meus cachorros. Costumava apenas me opor ao seu olhar indignado de cidadão do bem com aquele viés escatológico-chic.

Mas nesse texto propagando impropérios contra os Talibikers, ele abusou por exigir do leitor um grande esforço para a compreensão da sua lógica. Ao lê-lo, não consegui ver nada além de uma criança mimada ou alguém com senilidade precoce impedida de consumar seu desejo.

Na verdade sempre olho com desconfiança aqueles que, ao se sentirem prejudicados com protestos, criticam o ato em si. Entendo ser ônus do protesto que todos sejam forçados – com todas as implicações negativas que a palavra carrega – a olhar para a situação que se põem em evidência. Parar a cidade por alguns minutos de nossas vidas para realçar a agressividade do trânsito paulistano já seria digno, ainda que não tivesse ocorrido a morte de uma garota. Protestos nos forçam a olhar pra algo odioso que nosso cotidiano abafa, camufla como sendo normal. Manifestações fazem o coletivo amadurecer, a pensar a própria relevância dessas questões inclusive.

Países de primeiro mundo têm suas ruas paralisadas por questões menos ou mais importantes também. Ao contrário da Alemanha de 1930, como compara o boquirroto jornalista, protestar é a tendência do milênio (saberia disso caso tivesse lido a revista TIMES e visto que foi eleito um “manifestante” como personalidade do ano). Só no último ano, poderia citar inúmeros protestos ocorridos no mundo passando pela a Praça Tahrir, todo mundo árabe, Wall Street e outros cantos do Mundo ocidental. Todos protestando. Todos eles na contramão atrapalhando o trânsito.

Mas não bastava ser incoerente, era preciso ser ridículo. Entre caçoar das roupas coloridas dos ciclistas e relegar a questão da briga pelo espaço público como sendo de menor importância – porque qualquer questão que não seja a sua questão é de menor importância – ele confunde conceitos, se intitula no direito de protestar porque seu protesto não atrapalha ninguém e se chama de antifascista num climão de “pronto, falei”.

Por fim, Reinaldinho também sugere em seu texto que os ciclistas façam, além de sofátivismo no facebook, petições às autoridades requerendo providências. Burocracias que nada têm a ver com a tentativa de sensibilizar motoristas, pedestres, ciclistas que passam por cima de quem quer que seja dependendo do tamanho do seu veículo. A velha história de grandes intimidando os pequenos – tire essa frase do contexto e veja quantas situações ela descreve.

Não acredito que apenas ciclistas se beneficiariam com cordialidade e respeito no trânsito. Não acredito em protestos em “praças ou parques”, lugares remotos, com finalidade recreativa, assim como não acredito em manifestações organizadas, assépticas, comportadas. Protestos “do bem”.

Acredito em debate acalorado e pessoas indignadas. Acredito no direito de ir e vir tanto quanto acredito no direito a livre manifestação (ambos protegidos pela constituição do Tio Rei). Acredito que mesmo os Talibikers sendo minoria devem ser ouvidos.

Acreditava, assim como Reinaldo Azevedo, que “o mundo precisava de mais leitura”. Mas, justamente ele que é leitor contumaz tem a capacidade de acreditar com tanta veemência em seus próprios sofismas, vejo que a leitura por si só não há de salvar.

E assim, falando em leitura e salvação, aproveito este grandioso texto do Rei, aqui impresso sobre minha mesa, para dar-lhe a destinação correta. Vou ali retirar a fedentina deixada pelos cachorros no meu quintal. Vamos torcer pra que a merda recolhida não seja aviltada por essas palavras como fomos nós, leitores menos assíduos de Rei Naldo Aze.V.do.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Amália, uma mulher em termos

Ela, a esposa, acordava mais cedo para por o café na mesa. Ele, o marido, sentava e lia o jornal como de costume. Não conversavam. Não se tratava de um silêncio incomodo. Era apenas mais um no recinto. Mais um calado na mesa do café.
Ele lia parte do jornal até finalizar sua xícara, e ia pra sala terminar os últimos cadernos, que chamava de amenidades. Então emendava sua atenção aos programas de esportes da manhã.
Não tiveram filhos. Não quiseram por um tempo, e depois pararam de falar no assunto. Foi quando pararam de falar sobre qualquer assunto. Não tiveram gatos, cachorros ou pássaros. Se bastavam um ao outro.
Viviam de renda que não era muita, mas não se podia reclamar. Ela cuidava da casa, das coisas. Ele cuidava do tempo. Cuidava para que voasse e que a vida os fizesse envelhecer com demasiada saúde. Não se tratavam mal ou com desdém, apenas orbitavam a uma distância considerável a ponto de não colidirem.
Ela às vezes quebrava a rotina perguntando se queria mais uma xícara de café, ou então um pão na chapa. A resposta era sempre a mesma, um grunhido entre o meio sorriso condescendente, sem tirar os olhos do jornal. Não queria o pão e nem qualquer mudança no cotidiano. Bastava que seguissem o script e chegassem ao fim do dia intactos, de pijama, pantufa e gotas de lavanda no travesseiro.
Ela por vezes angustiava. Há muito que não temia o caos. Apenas desejava que viesse sereno para que pudesse lidar com ele. Não faria café, serviria conhaque talvez. Certamente que soltaria os cabelos. Mas eram devaneios, que a princípio bastavam pra colorir, mas começavam a ganhar uma dimensão que escapava ao controle.
Um belo dia o incomodo transbordou. Não era o sol que estava mais forte, ou o café que ficara mais fraco. Precisava sair. Olhou pra sala e viu o marido terminando o jornal. Deu a volta por trás da casa, abriu o portão e foi pra rua sem destino. Não percorreu mais que um quarteirão. Voltou pra casa com algumas desculpas ensaiadas, mas ele nem havia notado. Tomou gosto pela aventura sem sentido. Atitudes despropositadas. Vida sem motivo.
Começou a ousar mais. Demorava-se nas voltas. Percorria ruas do bairro que não conhecia. Voltava sempre na esperança de ter que explicar aquele rompante. Ele não perguntava. Sequer percebera mudanças naquela casa tão cheia de vazios.
Passou a se enfeitar. Cabelos brancos discretamente reparados com tinta de farmácia. Batom de tons claros, roupas que antes não usava, sapatos que não mais usaria. Já distribuía bom dia às pessoas e tratava as vizinhas pelo nome. E a sua ausência a substituía com méritos dentro de casa. Nenhuma palavra era mencionada sobre a não tão instantânea mudança de hábito.
Então houve a manhã que saiu pela porta da frente. Arrumada e disposta a voltar tarde. Levou parte do jornal abandonado sobre a mesa do café para ter quem lhe fizesse companhia na hora do almoço. Desafiava o aperto no seu peito com canivete em punho. E desta vez se houvesse perguntas responderia aos berros. Não ouviu qualquer murmúrio quando fechou a porta de entrada. Por isso não disse nada também.
Sentou na praça e com medo de voltar pra casa. Apenas leu os anúncios de missa de sétimo dia. Uma das missas aconteceria a duas quadras dali. A de um professor aposentado. Pensou que certamente a companhia da aura da morte seria mais agradável do que o jornal roto e sua angustia viva.
Lá chegando foi sentar-se num dos últimos bancos, numa espécie de invisibilidade momentânea. Estava próxima apenas de um senhor de barba, chapéu e óculos.
“A senhora conhecia o morto?”
Não quis explicar. Sentiu vergonha do motivo. “Em termos”.
“Hum, ‘em termos’.” Balançou a cabeça ironizando “Todos que estão aqui, aqueles ali na frente, também o conheciam ‘em termos’. Choram como se tivessem perdido um ente querido. Em vida esse homem não lhes servia. Como morto lhes faz um favor.”
“O senhor deve estar muito abalado pela morte do professor. Não pode estar falando sério”.
Ele sorriu, ajeitou o chapéu e inclinou em sua direção “Este morto faz um favor aos vivos, e faz um favor a si mesmo. Sua partida lhes deixa a vontade pra tomar uma série de decisões que estavam a patinar. Cada um daqueles será obrigado a encarar pendências que adiam por anos. E o morto? Bom o morto vai viver na paz que sonhou. Vai viver o que desejava, o que obrigações, convenções, laços mal feitos e outros tantos desfeitos o impediam. O morto se vai e como herança deixa sua dignidade inabalada, porque a morte não é fuga. A morte é partir à revelia”.
“É uma bela metáfora, senhor. Não saberia lidar com tudo isso dessa forma.” Disse ela, também se inclinando em sinal de cumplicidade.
“Minha senhora, costumamos não lidar com as coisas que se apresentam, a menos que elas se imponham. Repito, a morte aqui é um acontecimento unilateral. Não há culpados, não há debates, não há mágoas. Há apenas o inevitável, sem discursos ou argumentos. O morto parte como deve ser, e os vivos vivem a ausência que se impõem.” Olhou para os lados como se despedisse, e num suspiro levantou-se. Fez uma meia reverência com o chapéu e finalizou “foi um prazer tê-la conhecido ‘em termos’. Tenha uma boa vida, e claro, se me permite o trocadilho, uma boa morte também”.
Ele foi caminhando para fora a Igreja e ela disse num murmúrio “Tenha uma boa vida o senhor também, Professor”.
Passaram-se três dias. Aquela casa vazia, jornal na mesa e uma xícara sem café. O marido lia e relia a página do obituário. Não conseguia lembrar-se de onde, mas conhecia aquele nome. “’Amália Nascimento Correa’...de onde meu Deus?!”.
Há três dias lidava com o fato de ter na mente um nome que não ligava a pessoa. Há três dias que não percebia que sua xícara não tinha mais café e que o jornal não havia sido trocado. Há três dias que Amália partira à revelia pra conhecer todos os termos de si mesma e lhe deixava de herança apenas um obituário. Um adeus com dignidade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Felizes para sempre

Findo o jantar, o rapaz a levou até a porta de casa. Ela segurou em suas mãos, deu um longo suspiro e disse “Meu coração está apertado. Você é um homem maravilhoso, inteligente sagaz, carinhoso. Sei que se te beijar vou me apaixonar. Vou sonhar com você por noites a fio. Fazer planos. Querer filhos. Você vai hesitar, me magoar, partir meu coração. Vou me tornar uma louca, ligar pra você nas piores horas, vou querer atenção, vou implorar pra que não me deixe. Vou te perseguir. Melhor mesmo que não me beije.”
O rapaz ainda atônito com todas aquelas previsões macabras de um provável futuro próximo, não havia largado as mãos trêmulas da moça. Tentou argumentar. “Mas...como pode saber...” e ela não o deixou terminar. “Sei que vai ser assim. Olhando seus olhos já vejo nossos filhos brincando. São três, dois meninos e uma menina. Todos com seus olhos”
O rapaz recolheu então suas mãos nos bolsos traseiros da calça. Gotículas de suor frio já podiam ser percebidas em sua testa. E a moça continuava “então teríamos gatos e cachorros, um carro grande para os fins de semana pra que você pudesse manter esse seu carro de solteiro que tanto gosta. Vejo tudo isso. Não consigo me ater ao que seria nosso primeiro beijo. Nossas vidas entrelaçadas pra sempre, se desenrolando bem aqui na nossa frente como um longo tapete vermelho. Basta que caminhemos sobre ele e façamos nossa felicidade. Sei então que vai hesitar, e por isso não posso te beijar. Você não pode ficar marcado como o homem que vai destruir meu coração, certo?”.
As chaves do carro já dançavam na mão do moço. As costas da mão deslizaram pela testa pra enxugar os sinais de resistência, orgulho masculino por tantas gerações. E num movimento rápido e preciso balançou a mão da moça numa despedida quase ofegante. “Acho que você tem razão. Somos novos, nosso primeiro encontro, não quero ser responsável por tantas desilusões”. A moça sorriu um sorriso triste, franziu a testa o quanto pode e fez questão de evidenciar aquela minúscula lágrima presa no canto dos olhos. Não a derrubou. Achou que seria mais dramático. Então balançando as mãos num tom de voz vacilante, soluçou baixinho “Adeus. Seja feliz”.
Entrou em casa e logo foi surpreendida pela irmã “Você é inacreditável. Usou o discurso de não te beijarei porque vai destruir meu coração de novo?”. A moça se voltou para a irmã com cara enfurecida “você me armou com um cara que gosta de ‘asa de águia’? Ele foi de casa ao restaurante chacoalhando o corpo ao som de ‘dança da manivela’. E depois disse que não perde Zorra Total. O que você queria que eu fizesse?”. Era o décimo que ela botava pra correr daquele jeito. Nenhum homem sobrevivia àquele discurso.
Após poucas semanas, estava sozinha em um restaurante. Um homem pediu pra sentar em sua mesa pela falta de lugares disponíveis. A moça balançou a cabeça assertivamente. Era lindo. A voz grossa, peito largo. Postura impecável. Falava baixo e falava pouco. Pelo pouco que puderam ver, tinham muito em comum. Ela estava terminando o livro que ele tinha começado. Os favoritos do Ipod de ambos eram quase todos os mesmos. Frequentavam praticamente os mesmos lugares, e ele até lamentou com certa incredulidade o fato de nunca terem se encontrado antes. Trocaram telefones e combinaram de sair.
Saíram poucos dias depois. Cinema e um bar com som ambiente. Falaram de viagens, de bebidas, comidas, família. Ambos odiavam Asa de Águia e Zorra Total. Riam e riam alto, porque também compartilhavam o gosto pela cerveja e sua natural reincidência, copo após copo. A certa altura da noite ela já não podia disfarçar o seu encantamento.
Pagaram a conta e ele a acompanhou até a porta do bar. Segurou em sua mão, olhando dentro de seus olhos, disse “Não posso te beijar. Sou assassino confesso de minha ex mulher. Paguei minha pena com a sociedade, mas não me livro dessa minha repugnante e abjeta misoginia. Vago pelo mundo odiando mulheres e querendo possuí-las apenas para matar meu prazer e depois enche-las de porrada. Já fiz tratamento, mas não me curo. Não respeito mulher no trabalho, não respeito mulher no trânsito, não respeito mulher em nenhuma circunstância. E já que estou confessando, não respeito sequer minha mãe.”
A moça estupefata mal se deu conta de que enquanto uma das mãos do homem segurava seu braço, a outra fazia sinal para um taxi que se aproximava. Deu-lhe um abraço apertado, um suspiro triste, daqueles que arrastam o mundo, e acrescentou “você é especial demais pra se amarrar a um pulha como eu. Não posso te oferecer nada além do que essa sina que me persegue. Sofreria por te fazer sofrer.” Num rodopio, abriu a porta do taxi, acomodou a moça no banco traseiro e mandou o motorista tocar. “Adeus, é com o coração partido que te vejo ir embora. Seja feliz!".
Demorou uns minutos pra moça recuperar a respiração. Sentiu um remorso pela doença e um aperto no coração por ter encontrado o homem de sua vida e ele com toda essa degeneração. E mais angustiada ficou quando se viu tão especial aos olhos daquele homem, que a poupou de seu julgo e violência.
Foi quando de repente percebeu a cena. Vitima de si mesma. Idiota! Aquele era a sua tática. Discurso rápido, autopiedade, inflacionar o ego alheio, provocar medo sem sequer haver um dedo de ameaça. Não estava acreditando. Estava ali, sozinha naquele taxi vagando sem destino, e ”...espera...filha da puta! Aquele homem ficou com a minha carteira”.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Correndo de, correndo para




Não tomo remédios pra me curar das angustias que vem e vão. Optei por correr e suar à exaustão qualquer incômodo ou ansiedade. Acho que resolve. Ou talvez não. Talvez seja apenas um excesso de endorfina que me permite uma nebulosidade temporária e um desfoque que, sem dúvida, é mais agradável do que a primeira sensação.

É meu álcool, meu rivotril. Meu remédio. Não vou fazer apologias ao método natural sem contra indicações, pois elas existem. Meu joelho sofre, meus pés sempre estão em frangalhos e, segundo minha dermatologista, acelera o envelhecimento da pele em pelo menos duas vezes. E como qualquer pessoa que faz uso de substâncias que lhes proporcionam bem estar, ignoro os aspectos negativos da bula. Sigo correndo.

Claro que os primeiros cinco minutos de passadas todo o meu corpo manda mensagens agressivas, em forma de protesto, questionando a submissão àquela tortura extenuante e sem propósito. Algum condutor firme e forte – e porque não surdo – continua sua empreitada. A ordem é “apenas continuem” e assim passa o primeiro quilômetro. E ai começa a onda.
Não preciso mais me concentrar em inspirar duas vezes, expirar duas vezes. Membros inferiores estão todos dormentes, espécie de transe cadenciado, que a física mecânica chama de inércia. O vento já é meu companheiro e a solidão é agradável.

Sempre tem música. Algumas vezes playlists preparadas, outras no shuffle para que eu seja surpreendida. E um filme desconexo passa pela minha cabeça. Eu viro outra pessoa num mundo com regras diferentes e combinações tentadoras. Seleciono meus personagens e os transformo para que se adequem ao meu enredo.

Alguma reação química faz com que as cores se polarizem e que as mágoas vazem pelos poros. Costumo perdoar e compreender a partir do quarto quilômetro, e no sexto tenho todo um plano pronto pra conversas e reconciliações. Nem sempre elas acontecem, mas pra alguém que não comunga em qualquer religião me funciona bem como penitência. Relevo, e sigo. Sigo correndo.

E então quando penso que já não há mais problemas, me entrego ao êxtase. Geralmente estou entre o sétimo e o oitavo quilômetro e algumas bizarrices acontecem. Se estou segura do caminho, fecho os olhos só pelo simples prazer de potencializar a sensação do vento na pele molhada e do sangue bombando nas veias.

Se estou a beira mar, desligo o som pra ouvi-lo e fecho os olhos, deixando a máquina no piloto automático. E se o que dizem aqueles que meditam que o intuito é varrer tudo da mente até não pensar em nada, digo “aqui estou, mas vim por caminhos diferentes”. Pronto, começo a correr a esmo até o maquinista surdo autorizar os primeiros comunicados de fadiga e dor serem protocolados e atendidos. Desacelero até a caminhada devagar e sentir que não domino o corpo, e assim poder esticar cada membro pra que ele cresça e talvez prolongue a sensação de bem estar.

Seguem os suspiros. Sigo só. Sinto, apenas, que não sinto nada. E não sentir nada é o que procuro de tempos em tempos. Não corro de nada, corro pro nada.



terça-feira, 5 de julho de 2011

1986 – O Gol de Zico

Eram apenas dez anos de vida e minha segunda copa do mundo. Adorava aquele time do Brasil, embora quando criança não entendesse nada de esquemas táticos ou funções de cada jogador dentro da partida.
Julgava nosso goleiro Carlos como o melhor do mundo, afinal eu não o vira tomar gol até aquele jogo. O time todo era muito bom. Careca, Sócrates, Alemão, o Muller novinho e claro, o Zico.
O camisa dez tinha classe, categoria, técnica e inteligência acima do comum. Seus dribles espetaculares e seus gols, mágicos. Personificava o inconsciente coletivo do camisa dez.
O Zico passara o ano anterior se recuperando de uma lesão no joelho, mas nunca deixou de ser o craque que mudaria qualquer situação. E foi exatamente o que aconteceu naquele dia 21 de junho de 1986.
O Jogo era pelas quartas de final contra a seleção da França de Michel Platini. Aquele ano já havia acontecido desastres demais: O Sarney era presidente e surpreendia o país com seu o plano cruzado, a nave espacial Challenger havia explodido e Chernobyl contaminava o mundo com sua enorme nuvem radioativa. E na história das copas, o Brasil não ganhava havia 16 anos.
Todos em suas casas aguardavam a partida em Guadalajara, México. Era o mesmo país palco da glória de 70. Seria o destino preparando um reencontro com a vitória?
No Brasil, as ruas pintadas, as caras apreensivas, o silêncio angustiante dos rojões. O trauma mal cicatrizado da queda em 1982 ainda pulsava. Se esse time de 86 era bom, o de 82 fora incrível. Mas o incrível caíra diante os pés impiedosos de Paolo Rossi.
Essa seria a hora da redenção de Telê Santana, que teria de fazer seu time voar. Havia uma necessidade coletiva, uma ânsia amarga para que o tempo fizesse justiça à seleção que havia perdido para a Itália.
O primeiro tempo foi marcado por lances geniais, especialmente o que se tornou o primeiro gol do Brasil. Josimar, pela direita e passa para Muller que ao seu melhor estilo, recebe de costas para o gol. Faz o pivô deixando três franceses para trás. Avança pela meia direita, passa para Júnior que corria a poucos metros. Com apenas um toque suave na bola, Junior coloca Careca de frente para o gol. Foi um chute preciso. Brasil um a zero.




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Os franceses não desanimaram e o jogo esquentou. Pouco mais de vinte minutos, Carlos era vazado pela primeira vez. Amoros cruzou pela direita, Carlos não pega e Platini completa. Jogo empatado. Dentes e punhos cerrados. Frio na barriga.
Era aniversário de Platini, mas a festa era pra Zico. De fora da partida até os vinte e sete do segundo tempo, o camisa dez mal entrara e já colocava Branco de cara para o gol. Zico rolou tão perfeitamente a bola para Branco entrar na área, que o goleiro francês Bats foi obrigado a fazer o Pênalti.
Zico, mesmo frio, pegou a bola. Com leveza, carregou um mundo verde-amarelo em seus ombros. Ao mesmo tempo, jogadores da seleção se abraçavam de felicidade. O momento era aquele. Pênalti e Zico significavam meio gol.
O Galinho ajeitou e deu três passos largos para trás. Olhos nos olhos com Bats, mas sinalizou um momento de fraqueza. Deixou que o goleiro percebesse o segundo em que mirava seu canto esquerdo. Conteve o suspiro. Não sonhou com a glória, não ouviu a torcida. Não sentiu a ansiedade de seus companheiros. Não teve medo. Chutou com classe.
Ainda fitando o canto esquerdo do goleiro, pegou caprichosamente mais embaixo da bola fazendo com que ela subisse em uma trajetória singular. Um arco que seria assunto em telejornais do mundo. Equações matemáticas seriam insignificantes para traduzir o que foi a simplicidade do movimento.
Não encobriu o goleiro, pois este caiu na ardilosa armadilha de Zico. Ficou lá, deitado para sempre na história naquele minúsculo metro quadrado ao lado de sua trave esquerda. Bats não teve tempo de ver a bola, bem no centro do gol que ainda antes de cair passara rente ao travessão. Os jogadores do Brasil já a levavam ao centro de campo, juntamente com o herói da classificação.
Zico já estava na história, afinal, depois de Pelé nunca se vira alguém vestir com tanta maestria e perfeição uma camisa dez. Zico agora estava na história juntamente com a glória de ter entrado para um jogo apenas para mudar seu destino, e com ele o destino da seleção brasileira.





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PS.: Este texto foi escrito há mais de um ano e transportado para este blog somente agora. Retomando meu blog por conta deste texto

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

As paixões que não se explicam

futebol blog

Faltando duas rodadas para acabar o campeonato brasileiro, já é possível dizer com certeza quem será o campeão. Não será o meu time, pois ao longo da corrida cometeu alguns erros – imperdoáveis ou não, todos parte do jogo, literalmente.

Mas eram tantos os candidatos ao posto que, na minha conclusão, irá se sagrar campeão não o melhor (acho que há muito que não se vê "o melhor" como aquele time do Palmeiras de 96, do São Paulo de 92, do Flamengo de 83 ou até do Santos de 2002), mas o que errou menos e se beneficiou mais dos erros alheios (os da arbitragem, inclusive).

Contudo, competição é assim mesmo, apenas um ganha enquanto outros muitos perdem e a diversão fica por conta da comemoração. Espezinhar o torcedor do time adversário faz parte, aliás, é a melhor parte. Gritar, vestir a camisa, hastear a bandeira, ver e rever os gols, guardar o pôster mequetrefe que vem no jornal do dia seguinte. É previsível, está dentro do contexto. É saudável e, acima de tudo, necessário.

Mas tem o outro tipo de comemoração que é a daquele torcedor que não se contenta em tripudiar, mas racionaliza a paixão argumentando que por ser o seu time o campeão nenhum outro vale a pena. Com mais uma vitória do São Paulo já apareceram alguns desse tipo no caminho, o que me faz lembrar que foi exatamente essa atitude que ratificou minha renúncia pelo São Paulo há alguns anos.

Explico. Houve um tempo em que eu brincava de barbie e o futebol, com exceção da seleção, não me interessava. Era começo dos anos oitenta, e se me perguntavam para que time eu torcia, apenas olhava pra minha mãe e sinalizava que concordava com sua preferência pelo Corinthians.

Foi quando, já no início dos 90, minha turma do prédio rateou o salão para que todos pudessem assistir uma partida do São Paulo válida pelo mundial. Seria a conquista do primeiro título. Compareci, e a princípio simpatizei com aquele time - como não simpatizar com um time que tem Raí?

A vitória veio e, conseqüentemente, a comemoração. O número de são-paulinos no recinto era superior, embora houvessem torcedores diversos. A reação dos vitoriosos foi instantânea: era moda dizer que “torcer pro São Paulo é uma grande moleza” e logo o argumento de que os perdedores somente assim o eram por suas más escolhas, equívocos, irracionalidade ou até mesmo burrice. Como não torcer para aquele time!?!

No mesmo instante a simpatia que havia sentido se esvaiu. A arrogância era patética. Todos aqueles meus amigos imbuídos de uma superioridade que lhes parecia ter sido conferida por algo predeterminado, divino. Senti pena daqueles que eram perdedores sem que ao menos seus times tivessem entrado em campo.

Dizem que cada vez que um time ganha acaba arrebanhando centenas, milhares de torcedores órfãos. Não da para explicar a minha ojeriza: eu acabara de ver um time sagrando-se campeão do mundo e ao mesmo tempo compreendia que não havia qualquer possibilidade de compartilhar aquela alegria.

Pouco tempo depois fui a um jogo do Palmeiras com amigas. Fui para não perder a balada, despretensiosamente. E então, foi amor a primeira vista. Minha identificação com a camisa, com o time, com a torcida que cantava e vibrava. E nem era um jogo decisivo. Paixão não se explica, apenas sente-se. E de forma arrebatadora. É incondicional.

Ao contrário do que era vociferado pelos são-paulinos enlouquecidos pela vitória, não conseguia sentir que estava tomando o caminho errado. Não posso me arrepender da escolha, pois não escolhi. Fui escolhida.
Falo disso hoje, pois ontem fui assistir ao jogo do meu time, já sem chances de ser campeão nessa temporada. Não houve sensação de vazio, pelo contrário. Foi alegre, bonito, acolhedor. Foi leve, no sentido mais amplo e positivo do termo.

Não pretendo fazer disso minha resposta aos muitos torcedores que intencionam racionalizar aquilo que foi feito justamente para iludir, sonhar e até suprir o sentimento belicoso. Mas acho que pode servir de desabafo àqueles que ainda gastam seu precioso tempo argumentando o porquê de seu time ser o melhor.

Gostaria, também, que fosse resposta àqueles que fatalmente deixarão seus comentários sem profundidade após ler meu texto, mas como sei que não servirá sequer como reflexão, deixo ao menos, e antecipadamente, meu lamento.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O ESPAÇO QUE OCUPA O VAZIO

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Com tobogã e andar vazio, 28ª Bienal de SP é aberta para o público

A 28ª Bienal de São Paulo foi aberta neste domingo (26) para o público. A mostra, que aconteceu no Ibirapuera, segue até 6 de dezembro. A entrada é gratuita. 

Os visitantes encontram uma área de serviços no primeiro andar, além de dois projetos de artistas participantes, como a obra “Talismã”, do norte-americano Paul Ramírez Jonas. Lá, o visitante poderá trocar a chave de sua casa pela chave que abre a porta do pavilhão da Bienal.

O segundo andar inteiro vai permanecer completamente vazio. “A idéia é propor uma reflexão sobre o sistema das Bienais”, disse Ivo Mesquita, um dos curadores da mostra. “A ocupação do espaço é uma questão fundamental.” Para Ana Paula Cohen, outra curadora, a iniciativa é importante também para que o visitante tenha a oportunidade de observar a estrutura do edifício.

Já no terceiro piso haverá trabalhos que abordam de alguma maneira aspectos da história da Bienal de São Paulo, além de uma biblioteca e um espaço para conferências

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O vazio é o nada. É ausência de tudo. É a falta de preenchimento de algo. É oco, inodoro, incolor e quiçá insípido. É desprovido de conteúdo. É vazio.

Um tanto anacrônico considerar a proposta do vazio na 28º Bienal de Artes de São Paulo sendo algo de vanguarda. A todo o momento somos estimulados a lidar com a complexidade do múltiplo, o acúmulo material e intelectual, o preenchimento do tempo e do espaço a fim de suprir as necessidades existentes. Somos impulsionados ao consumo. A satisfação do ser está intimamente ligada ao ter. A felicidade é moeda de troca: só é feliz aquele que se realiza ao mesmo tempo na vida pessoal e profissional.

Quando há o vazio, há a impressão de que algo saiu errado. Logo somos levados a crer que os objetivos não foram alcançados; falhamos. Existe uma incompetência subtendida no conceito do vazio que chega a superar a própria percepção da ausência. Pode-se dizer que a angustia que toma conta de nossos sentidos chega ser um alento, pois ela preenche a sensação do nada que havia até então.

Não pretendo dissertar sobre as pretensões artísticas do Curador da Bienal ao propor esse debate, até porque estou a anos luz de ser uma entendida do assunto. Segundo Ivo Mesquita, atual curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a intenção do vazio é chamar para uma conversa. "Resolvi assumir e dar a cara para bater. É uma Bienal bastante polêmica e entendo se ela for controversa. Não haverá exposição no sentido formal. Odiaria ter que fazer uma exposição tampão, convidando artistas sem fazer uma pesquisa. Tive dez meses para preparar a Bienal, quando o prazo normal é dois anos. Fiz o que pude no tempo que tenho", disse.

Mas acho que a proposta vai alem. A questão primordial é saber o quanto esse “Vazio” incomoda? Pelo espaço que ocupou na crítica especializada, superando até mesmo aquele destinado a falar das artes ali expostas, sou forçada a concluir que ocupou uma dimensão bastante desconfortável.

Milan Kundera expõe sobre o assunto maravilhosamente bem quando escreve “O drama da vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos”. Mas quando o drama é configurado sobre o vazio, quando não há o tal peso e sim a sua ausência, não sabemos como proceder “(...) Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser”.

Por isso o peso do Vazio é tão insuportável. Não aprendemos ainda a lidar com ele: o inimigo invisível. Então criamos um milhão de moinhos de vento para dar visibilidade aos nossos dramas e lutarmos em termos de igualdade.

O vazio nos afronta, nos desafia a todo o momento a sermos criativos, a pensarmos e a olharmos para nós mesmos sem espelhos. Isso seria ótimo se não fossem os efeitos colaterais como o esse estímulo para preenche-lo com um sem número de objetos e informações desnecessárias. Então, paradoxalmente, a cultura se esvai nessa monstruosa quantidade de produções, frases e criações em série. Somos, ao final, desguarnecidos por essa avalanche de conceitos e formas, que nada nos acrescenta ao passo que nos usurpa de contemplarmos a insustentável leveza do Vazio.

OBS.: Não saberia dizer, mas tenho a impressão que a cada ano que passa os enfeites de natal são colocados a mostra cada vez mais cedo, como se de alguma forma eles pudessem ocupar o restante do ano que falta para acabar. Talvez são nessas pequenas coisas que o vazio se anuncia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

IMPRESSÕES DE MIM MESMA

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Nasci no dia de todos os santos. Acendo vela pra todos eles, mesmo não sendo católica. Cresci acreditando ser parte de uma experiência, onde pessoas descontroladas, impulsivas  e com lampejos de racionalidade brigavam pelo controle do meu corpo e da minha mente, assim como no filme “quero ser John Malkovich”. Com o tempo, passei a fingir não acreditar mais nesse devaneio. Com o tempo também passei a desconfiar da realidade.

Sonhei que seria muitas coisas. Alimentei expectativas.Veio o inesperado e descobri que não sonho mais em ser: apenas sou, sem me esgotar em definições. Mesmo assim não parei ainda de sonhar.

Não me engano com frases. O trabalho não dignifica o homem nem Deus ajuda aquele que madruga. Também não creio que devemos ser Romanos apenas por estarmos em Roma.

Não entendo de vinho. Não o cheiro  nem  o chacoalho. Tomo e se ao paladar me bastar, prossigo bebendo. Na cozinha, subverto as receitas. Não sigo regras. Estradas sinuosas não me deixam dormir. E se todos os caminhos nos levarem mesmo a Roma, só quero me sentar à janela para admirar a paisagem - com a única certeza, apenas, de não me comportar como romano.

Adoro palavras. Sou prolixa ao extremo. Mas me atrai aqueles que sabem quando e como calar. Usa-las com precisão é uma arte que aprecio.

Gabô, Saramago, Guimarães sempre me levam às lágrimas porque fazem bom uso das palavras. Eles me roubam o ar com extrema facilidade. Meu Vô também tem conseguido o mesmo. Mas não apenas com palavras.

Ser mãe é olhar pra fora do umbigo; é ausentar-se de si mesma ao mesmo tempo em que somos, paradoxalmente, nós mesmas com a maior intensidade.

Não há melhor perfume do que cheiro de chuva no verão. Não há orgasmo tão intenso quanto ao gol do título. Não há som que se compare ao interstício primordial chamado silêncio. Não há melhor silêncio do que aquele compartilhado, quando tudo já está entendido e acertado e nada mais precisa ser dito.

Não há melhor fase na vida do que os trinta, pois é quando descobrimos que a melhor fase é aquela que estamos vivendo.

Não vivo mais a dúvida. Aceito-a como parte de mim. Assim como minhas loucuras, meus desejos. Não aceito, apenas, minhas preferências, Vivo-as como sendo parte de minha essência. Café só se for amargo. Comida, apimentada. Amigo, incondicional. Amor, só acompanhado de paixão. Não gosto de morno. Aprecio o quente e o frio em seus extremos.

Aos dias que me restam, coleciono planos, metas, esperanças e surpresas. Mas como é mesmo o inesperado, que muda a vida, aguardo-o com resignação. Aos dias que já foram, contam apenas as memórias distorcidas das palavras que escrevo, de pessoas que aqui estavam e hoje não estão mais. Dos acontecimentos que me fizeram e marcaram. Apenas fragmentos. Nunca os destroços.

Quanto a esse momento, satisfaço-me apenas em dizer que se me apetecer, no próximo minuto mudo tudo. Apago esse texto e escrevo outro. Não por frivolidade, mas pela simples sensação de estar viva.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O PROTOCOLO DA FÉ

liturgia3

Der Spiegel -13/10/2008 - Controvérsia sobre Pio 12 se intensifica: Santidade para o papa do Holocausto?

O papa Bento 16 alimentou na quinta-feira passada as especulações sobre a possível beatificação do papa Pio 12, criticado com freqüência por não ter feito o suficiente para combater o Holocausto. O Vaticano tem trabalhado duro para melhorar a imagem popular de Pio.
O papa Bento 16 lançou na terça-feira uma saraivada de argumentos em defesa de Pio 12. Falando durante uma missa na Basílica de São Pedro em comemoração ao 50º aniversário da morte de Pio, Bento disse que o pontífice, que se tornou papa em 1939 logo antes do irromper da guerra, "trabalhou em silêncio e em segredo" durante o conflito "para evitar o pior e salvar o maior número de judeus."
Entretanto, nem todo mundo é tão otimista quanto à perspectiva de santificação de Pio 12. O rabino chefe da cidade de Haifa (em Israel), She'ar Yashuv Cohen, que na segunda-feira se tornou o primeiro judeu a falar diante do concílio de bispos do Vaticano, disse que muitos judeus estavam descontentes em relação a Pio.
Outros não foram tão diplomáticos. Num livro de 1999 chamado "Hitler's Pope" ["O Papa de Hitler"], o escritor britânico John Cornwell documentou o papel de Pio antes de se tornar papa, na negociação do "Reichskonkordat", tratado assinado entre a Alemanha Nazista e a Igreja Católica em 1933. Muitos historiadores argumentaram que esse acordo fornecia ao regime nazista um grau substancial de legitimidade internacional.
O jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, publicou na terça-feira um artigo de página inteira elogiando os esforços de Pio durante a 2ª Guerra Mundial. O jornal também incluía um texto escrito pelo secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone. "Se ele tivesse feito uma intervenção pública, teria colocado em perigo a vida de milhares de judeus, que, sob suas ordens, foram escondidos em 155 conventos e monastérios apenas em Roma", escreveu Bertone.

Antes mesmo de comentar a notícia, preciso me posicionar quanto às minhas convicções. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, posso garantir que não sou ímpia, mas tenho aversão a ascetas. Não faço o sinal da cruz quando passo por igrejas ou cemitérios, e não suporto os que fazem e a partir deste ato acreditam-se “pessoas do bem”.

Exercito minha espiritualidade, mas há muito que eliminei a igreja como interlocutora de meus questionamentos para com Deus. Não suporto pensar que a liturgia seja mais importante que a crença. Por isso, abomino todo o arcabouço burocrático da instituição.

E por falar em burocracia, a mais nova preocupação de Bento XVI é a propor ao mundo uma releitura do pontificado de Pio XII, usando como subterfúgio sua beatificação. Já acho por si só canonizações e beatificações estúpidas; meras tentativas de embalsamar efemérides das grandes figuras eclesiásticas; muita aparência para pouca essência.

Porém, neste caso a beatificação é muito mais significativa. Não se trata de apagar o passado daquele que jamais ousou falar qualquer coisa sobre as atrocidades nazistas, mas ressaltar a figura de um santo homem que teria usado o silêncio para salvar vidas.
Não sou contra releituras de episódios da história. Até me comovo quando personagens são reconsiderados e suas intenções julgadas de modo adverso originando novas dimensões, novos paradigmas. Galileu, oras! Mas estão criando factóides. Querem escamotear um episódio constrangedor, e ainda na melhor das hipóteses reconstruir a imagem de um Papa que, dizem alguns, compactuou com os alemães do terceiro reich.

Não me atrevo a julgar os motivos do silêncio eclesiástico, mas ouso opinar no sentido mais mundano. Além do (desconfia-se) antisemitismo cultuado em silêncio pelo Papa Pio XII, há a sua humana mesquinharia, serena pequenez e a segurança de ser tão somente platéia em meio a um espetáculo de horror.

Inevitável não lembrar dos dizeres de Bertolt Brecht “Primeiro eles vieram buscar os comunistas. Não falei nada porque não era comunista. Então vieram buscar os judeus.
Não falei nada porque não era judeu. (…) Finalmente vieram me buscar. Quando isto aconteceu, não havia ninguém para falar.” Claro que o nazista jamais ousariam a buscar o Papa, muito embora também não acredite que viriam ao encalço dos católicos em represália. Mas em se tratando de Hitler, não apostaria tão alto. Até se justificaria essa boa intenção.

Mas a verdade é que não acredito nas boas intenções. Não acredito também que se o Papa tivesse se pronunciado, como garantem hoje rabinos e intelectuais judeus, algo teria sido diferente. O que acredito é que em se tratando do Papa, jamais poderia ter colocado seu trono em tão alto muro e sentar sobre ele como se deitado em berço esplêndido estivesse. Era sua obrigação dizer algo. Acredito também que os mesmos rabinos e intelectuais judeus que se pronunciam tão categoricamente contra a beatificação, são os mesmos que se calam diante das atrocidades cometidas contra palestinos.

Mas no fundo acredito mesmo que a boa intenção do Nazi-Pope II (Bento XVI para os mais íntimos) não é nem de perto um gesto benevolente para com a memória de seu antecessor, mas apenas a garantia da perpetuação do papado em vida e da sua santidade em morte. (A chama da vela que reza/Direto com santo conversa/Ele te ajuda te escuta/Larara…)

domingo, 5 de outubro de 2008

OS CEGOS QUE NÃO QUEREM VER

a cegueira

Federação de cegos dos EUA pede boicote a "Ensaio sobre a Cegueira"

Los Angeles -1 out - A Federação Nacional de Cegos (NFB), a maior organização de cegos dos Estados Unidos, anunciou hoje mobilizações contra o filme "Ensaio sobre a Cegueira" em sua estréia por considerar que retrata os portadores de deficiência visual como depravados.

O filme, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e que chegará aos cinemas americanos no dia 3 de outubro, é baseado no livro "Ensaio sobre a cegueira" do escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, e relata o caos que haveria na sociedade se todo o mundo ficasse cego de repente.

A obra segue fielmente a trama de Saramago, que pretende gerar uma reflexão sobre os padrões de comportamento e a moral do ser humano, e como esses se modificariam se passassem por uma situação limite.

O enfoque desta história, no entanto, irritou a NFB às vésperas da estréia do longa-metragem nos Estados Unidos. "Os cegos aparecem no filme como incompetentes, sujos, viciados e depravados. São incapazes de fazer as coisas mais simples, como se vestir, se lavar e encontrar o banheiro. A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver", disse Marc Maurer, presidente da NFB em comunicado.

Ao ler a notícia pensei instantaneamente “pior cego é aquele que não quer ver”, mas mesmo para tamanha bizarrice essa frase ainda seria um precário chavão. Tal como o livro de José Saramago, o filme Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles traz inúmeras metáforas e alegorias, sendo que a mais explícita é aquela que retrata toda humanidade como cegos e seu egoísmo e mesquinharia como imundice e escatologia.

Teríam os cegos se ofendido, na realidade, pela sua condição de deficientes visuais ou em seu âmago por serem tão humanos em última instância? Há tanto para explorar na fábula de Saramago que acreditava não ser possível haver espaço para banalidades como essa interpretação tão chula e "ao pé da letra".

O protesto é tão infeliz que mesmo sugerindo ser a tal cegueira branca do filme algo plausível, o organizador do boicote, o presidente da fundação de cegos, a confunde com sua deficiência afirmando que “A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver” .

É perceptível o contra-senso, pois o filme não trata dos cegos que normalmente fazem coisas do cotidiano mas de pessoas acometidas por uma cegueira anormal e que são obrigadas a se confinarem em um lugar que não conhecem geograficamente. O filme é sobre pessoas que jamais foram cegas e não sabem se o serão pelo resto da vida. O boicote vale-se de uma acusação tão absurda que não vale o tempo gasto para formular essa argumentação; apenas há que se lamentar. E muito!

Em uma resenha sobre o livro do autor português, o escritor e jornalista Marcelo Coelho diz “(O Ensaio Sobre a Cegueira) é como um grito de desespero; só que Saramago acha importante gritar o mais alto que possa, por saber que está diante de um público de surdos; (...) usando da ironia para reafirmar sua confiança de que ninguém é tão surdo a ponto de não perceber sua sutileza quando a usa, com a voz em falsete. Nessa confiança, há otimismo. Mas a sutileza em falsete é mais brutal do que sutil, porque o pessimismo a governa”. Resta-me apenas concluir que além de cegos estão surdos, e vivendo em uma fábula onde só há espaço para o literal e nenhum para o literário. Espero aqui não ofender os surdos, exceto aqueles que se fazem de "ouvidos moucos".

Seria cômico se todas as circunstâncias fossem levadas em consideração, se todo o cenário fosse avaliado. Esta associação de cegos é dos Estados Unidos, país que além de estar às vésperas de uma eleição presidencial, estão imersos em uma crise financeira que mudará os paradigmas entre a relação do Estado e mercado. Com o perdão da expressão, mas será que eles não estão vendo o que está acontecendo?

Ao que tudo indica, os cegos tentam se inserir no contexto do políticamente correto, dos danos morais judiciais sempre convertidos em dólares, da reinvindicação da igualdade sem desiguais, da hipocresia que habita o consciente coletivo e do respeito a minoria não porque deve ser algo genuino, mas porque é uma dívida social que será sempre impagável.

Toda essa história de protesto e mobilização apenas corrobora a tese do ser humano que tem a mesquinhez disfarçada, a escatologia recatada e morbidez prudente, mas que não é vista porque mesmo para aqueles que não são cegos quando olham não vêem, quando vêem não enxergam e quando enxergam nunca reparam. Afinal, somos todos realmente (e quase literalmente) cegos.

Obs.: abaixo, a opinião mais importante sobre o filme