terça-feira, 14 de maio de 2013

"Ta bom"...eu te amo

Fotos: Tudo Meu, tudo meu


Meu pai está aqui agora com meus filhos, mas são anos de fragmentos espalhados nesse quarto zoneado que é a minha memória. Ele está em toda parte. Me lembro das viagens à Sorocaba, eu com Atlas nas mãos, caçando países que nunca tinha ouvido falar, só para desafiá-lo a dizer a capital. Sabíamos sempre que ele nunca errava.
Falava aos berros conosco quando estávamos perto, mas nos poupava dos gritos, quando íamos todos a praia. Nós, as três Marias, nos espalhávamos entre aquele mundaréu de gente, porque tínhamos alvará pra sumir. E, então, a gente sumia. Mas, de tempos em tempos, ia ele para a beira do mar, assobiar com força pra que nós aparecêssemos de onde quer que fosse. Ele matava todos os outros pais de inveja, e Pavlov de orgulho.
Quando pequena, mal o via porque acordava e ele já tinha saído para trabalhar, e ia dormir quando nem tinha voltado para casa. Trabalhava de dia e estudava à noite, e assim foi por muitos anos. Tantos anos que tive idade para ir à formatura da última de suas quatro faculdades. E ele torcia – e de certa forma forçava a barra – pra que as filhas seguissem o exemplo. Eu até comecei a trilhar o caminho, quando me formei na segunda faculdade. Apareci com diploma na mão, num daqueles momentos que mereciam trilha sonora de Ennio Morricone, e ele, debochado, “Parabéns, filha, agora você é filha da puta duas vezes: advogada e jornalista!”.
O sarcasmo que a gente conhece, sabe e espera por ele o tempo todo. Basta alguém vacilar ao seu lado e ele aproveita para contar do cachorro que ama leite com café, mas separa o leite na tina pra tomar depois. Ou do gato que muda de cor quando come. Serve whisky, a visita desavisada, num copo furadinho, onde o líquido vai escorrendo como se estivesse transpirando. Faz cara de espanto pra mostrar que algo acontece atrás de você, só pra roubar a sua comida quando você se vira pra checar. Ou pior, oferece chá de “minhápica” para curar males de gente chata, que se lamenta da vida pra ele (minha-pica, sim, foi isso que você leu!).
Teve a vez que ele foi me buscar na balada, de pijama, e fez questão de entrar. Por mais de uma vez, colocou Ray Coniff pra tocar, quando minhas amigas pegavam carona. Me chamava pela janela do prédio, gritando “Maria Laura, sobe já!” ao invés de usar o interfone como todos os outros pais. Já o vi querer sair de casa com meias sociais marrom, tênis e bermuda para ir à academia (fato que pude impedir a tempo). Começou a falar sobre sua coleção de armas, quando alguns de nossos amigos do sexo masculino passaram a frequentar sua casa com mais assiduidade. Foi o melhor pai que uma adolescente pode ter, afinal, como passar por esse período sem traumas?
Mas foi pra ele que liguei, assim que soube que esperava um menino, seu primeiro neto. O melhor foi poder ouvir a frase mais linda e apropriada para o momento “finalmente vou poder passar pra frente, ensinar aos meus, as coisas que importam na vida: botar fogo em peido e arrotar o alfabeto”. Já, na minha segunda gravidez, quando pensava esperar um casal de gêmeos e fui surpreendida com a notícia de que eram dois meninos, liguei pra ele um pouco decepcionada “Pai...são dois meninos. Não tem menina” e ouvi a gargalhada, orgulho de avô macho e satisfeito com os caprichos da vida “Cê sabe que você ta fudida, né?” (suspiros).
Se insurgiu em solidariedade a uns colegas de trabalho demitidos, arbitrariamente, por Jânio Quadros. Participou do movimento, assinou a petição, e se decepcionou quando alguns resolveram voltar atrás usando a tecnologia inovadora da época: liquid paper sobre a assinatura do pedido de demissão coletiva, que forçaria a recontratação de todos. Foi um dos que não voltou atrás e rompeu com os que roeram a corda. Tinha família grande e mesmo assim não vacilou.
É meu porto seguro porque ele diz que tudo vai ficar bem, me dando garantias, mesmo quando sabemos que não é possível dar garantia pra tudo. Nem me lembro quando passei a chamá-lo de urso, mas o chamo assim porque é grande, forte, peludo e sei que não tem a menor graça vê-lo bravo.
Quando criança, eu o desenhava com rosto redondo, cabelo de telhadinho e bigode de risquinhos como se fosse o Gomes da família Adams. Herdei seu sarcasmo, o amor por cachorros e, por infelicidade genética, os pés chatos como os do Fred Flintstone.
Hoje eu falo do meu pai, porque homenagens devem ser prestadas aos vivos, quando se há tempo de dizer o quanto os amamos e quanto são importantes em nossas vidas. Confesso que adoro suas idiossincrasias, trejeitos e teimosias sem sentido. E, agora, depois de tanto tempo, sou capaz de entender o seu despretensioso “tá bom” como resposta aos meus inúmeros “eu te amo”, ditos cotidianamente. Porque é cotidianamente, no varejo, no sarcasmo, na genética do pé de Flintstone e da perna grossa de corredora que seu amor me cerca, me protege e me completa...e me sacaneia, porque, é sério, ele não perde uma oportunidade.

terça-feira, 5 de março de 2013

Cafés e Sílabas Tônicas (homenagem a Tati Cavalcanti)


Não demorou para a dinâmica da nossa relação tomar essa forma. Eu pousava com toda carga de histórias mal digeridas e era recebida com uma expressão que se pudesse pintar, a faria com as cores do sarcasmo e de espanto pelas obviedades ditas por mim sem que as pudesse perceber.

Bastava eu começar a falar, que o riso fulminante daquele olhar dela já matava mais que bala de carabina ou veneno estricnina. Apenas não tinha a peixeira de baiano, porque nem um músculo do corpo se dignava a mexer pra me torturar com o que parecia dizer “prestenção, né? Maria Laurá” (assim, com ênfase na ultima sílaba só pra torcer mais um tantinho o beliscão dado).

Bagunçava minhas diagramações até que elas, do avesso, me mostravam um mundo diferente do que eu acabara de relatar. Arqueava a sobrancelha e oferecia algo pra beber. Me salvava da vida enquanto passava um café fresco e servia com pequenas porções de coerência recheado com doses de coragem. Sim, me empurrava a coragem goela abaixo, em pedacinhos pequenos porque sempre soube que impelir grandes passos faz qualquer um regurgitar.

Ria-se inconformada com a falta de pragmatismo dos reles mortais, apenas porque se gabava de ser casca grossa, carcamana. Mas me confessava sem pudor todas as vezes que deixava pra chorar sozinha, esparramada no banheiro. E não era recibo de fraqueza, não, pois ostentava um glamour quase novelesco em se reservar estes momentos gloriosos a si. Era como se marcasse hora pra descompensar, recarregar e sair de lá pronta pra perguntar ao mundo porque todos estavam assim “tão parados, sem fazer a roda girar”.

Era a brisa da varanda, seu riso escandaloso das minhas piadas escatológicas e pseudo pornográficas, os comentários que iam direto à ferida, junto com aquele trocinho que faz o mertiolates não arder. Ela avisava “vai doer o que eu vou falar” e não doía porque no fundo a releitura dos fatos me fazia bem. Era reconfortante saber o quanto a gente pode estar equivocada sem nunca ter estado tão certa.

Meus suspiros resignados cuidavam de expelir o CO2 com as neuras, as críticas, os julgamentos e impropérios ao mundo só pra ceder espaço às milhares de novas releituras que se aproveitavam pra tomar o café e curtir os biscoitos. Ai, com a porta aberta, passava uma ou outra história, sua ou de seu pai, só pra esfregar o quão besta pode ser a vida quando se é cartesiana demais.

E na segunda xícara de café digeríamos o fato de que as pessoas caminhavam lentamente sob uma linha de tempo acelerada, cruel e inexorável. A água bate na bunda enquanto ainda nem se vislumbrou a necessidade da mudança. E com aquela caminhada cadenciada me levava à beira do abismo sem nunca ter me dito “pula”. E seguia falando baixinho, porque era quase o momento da epifania, que tinha gente que temia o pulo por causa da queda. Mas a queda precede o pulo, porque caímos todos, mas pular é que era a opção reservada a poucos.

Foi então que aprendi a perder o medo da altura, só pra sentar sob essa beira de abismo e olhar a paisagem. O sol nem era tão quente, tampouco o buraco tão fundo. O tempo também parecia menos impiedoso, talvez porque a coragem já devia estar fazendo efeito. E antes dela me cobrar pra por a pra roda pra girar eu dizia “A vida é curta, mas sempre da jeito de esticar um tantinho, né?”. E o mundo acabava naquele olhar de soslaio e riso malicioso com a sílaba tônica na oxítona “prestenção, né? Maria Laurá”


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um sonho a caminho de Bora Bora


(imagem do filme SONHOS de Akira Kurosawa)

“Relaxa...isso é só um sonho, entendeu?”

Devo ter ouvido isso em algum momento de dormência profunda, mas sou dessas que, ao acordar, se lembra apenas de muitos flashes de sonhos. Por isso passo os primeiros minutos da manhã, além de me ocupar das tarefas cotidianas no automático, montando quebra-cabeças até ter um roteiro de sonho que faça sentido.

Mas na manhã de hoje um flash se sobressaiu aos demais. Juntando todos eles, sob todas as óticas matemáticas das combinações possíveis, o todo não fazia sentido como algo com começo, meio e fim. Então, fixei apenas a sequência do flash marcante.

Não seria de se estranhar que essa sequência, por si só, fosse um sonho inteiro. Todos os requisitos estavam preenchidos: a cena bizarra, o novo amigo – e já muito querido, as alegorias fortes, a metáfora necessária e a angustia tensa que não chegava a ser o medo vivo característico dos pesadelos.

Lembro que nesse sonho eu já havia passado pela praia, convivido com amigos de ginásio, visitado uma tia viva já morta. Mas naquele momento me encontrava dentro do armário com a maior dificuldade em escolher a roupa que eu ia usar. Claro, que ao acordar eu já nem lembrava mais pra qual evento importantíssimo devia me vestir e o porquê da fonte de tanto sofrimento.

O contratempo não era desse exclusivo às mulheres que com três ou quatro roupas não sabe qual vestir, experimenta tudo até lembrar-se do quinto modelito, só pra deixar tudo mais tenso. No sonho, toda vez que eu puxava um vestido do armário não saia o que eu queria. Puxava outro e vinha um parecidíssimo com o primeiro, e mais outro, outro e outro. A cena era repetitiva como se eu estivesse presa.

Típica irritação de sonho quando a gente corre e não sai do lugar ou vai só de calcinha na faculdade e ninguém repara, a não ser você que se contorce toda pra cobrir as partes e ainda assim, não consegue fazer nada a respeito.

E então dentro de toda essa angústia, só posso me lembrar da forma como o novo amigo conduziu a cena. Eu já era pura irritação de chorar quando ele veio e disse “calma, eu te ajudo”.

E com a voz firme característica, a calma inarredável e o jeito simples cartesiano de enfileirar as frases e dar sentido ao mundo, foi puxando os vestidos enquanto explicava que se eu não tirasse dali de dentro eu não poderia enxergá-los. “Olha, está escuro aqui. É só isso”.

Então foi tirando tudo que era preto e jogando cores sobre a minha cama, sem esnobar a clarividência sobre o tema. Talvez ali ele possa ter dito: “Relaxa...é só um sonho, entendeu? Vista qualquer um deles porque agora já nem faz diferença...você já vê a diferença.”

E porque em sonho nada precisa fazer sentido, ao me olhar no espelho já estava usando a roupa que eu queria. Um vestido lindo que tive há muitos anos, amado, desses que nunca me deixava em dúvidas quando ele era o escolhido. O alívio foi imediato, estava em casa.

E a voz serena veio novamente “Agora, chega de perder tempo, né? Bora bora?”

Depois disso não me lembro se fomos embora ou se fui mesmo a Bora Bora, porque em meus sonhos isso acontece com a mesma naturalidade de ir a faculdade só de calcinha. Lamento que a sequência dele tenha ficado retida em algum plot fora de foco nessas sinapses que vagam meio bêbadas pela madrugada.

Sei que acordei aliviada depois de uma sequência nefasta de pesadelos intermitentes alternadas a insônia solitária. Talvez tenha ido mesmo a Bora Bora. E se fui, é certo que estava vestida adequadamente: cheia de certeza e confiança e, pode apostar, com sapatos combinando!

(vou manter no anonimato o amigo que me visitou em meu sonho. Ele sabe da homenagem, e se disse lisonjeado)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Can you hear me Major Tom?


Os quatro sentados olhavam o horizonte como tinha de ser. Desde criança eu achava que se as nuvens se movimentassem a uma velocidade que as fizessem mudar as formas antes de entender com o que elas se pareciam, seria sinal de que era preciso nos adiantar. Naquele dia o mundo não tinha pressa, o céu era estático. Nada de brisa aliviando. Mais um motivo para o encontro.

O momento pedia a calma e a parcimônia que fingíamos ter. Éramos bons nisso. E éramos bons porque nunca competíamos pelo maior drama, mas pela melhor piada sobre o drama. Porque tratávamos nossos encontros como piquenique, porque esse era um espaço reservado ao luxo em nossas vidas. A tal parte que nos cabia no latifúndio.

Mesa posta ao chão, bebidas e petiscos coordenando nossas órbitas e toda a realidade ali, cirurgicamente aberta, esperando ser tratada com a natural galhofa. Rir do que originariamente nos transformava em frangalhos.

Mas naquele dia em especial havia um álbum de casamento picado e queimado, um vestido de noiva dilacerado, e registros fotográficos da incineração pra que não houvesse dúvidas da intenção ferina. Não tinha graça. Talvez depois de alguns anos a gente se referisse a essa história como uma passagem muito mais desequilibrada do que é, colando várias alegorias e recortes de lendas pra parecer ainda mais caricato. Mas naquele momento era só um murro bem dado.

E o murro era em todos nós porque dizia um pouco sobre cada um. Por que era um passado sendo desfeito a despeito de escolhas que fazíamos para o futuro. Porque achávamos que não mudar a órbita quando nos parecia necessário configuraria traição às nossas verdades e por esse fato, os atos de coragem traziam consequências ainda piores do que poderíamos um dia prever. Era um murro porque até aquele momento não fora possível fazer sequer uma piada, e por isso nos roubava o momento do piquenique.

Os olhares eram de lamento. A realidade não estava mais sendo operada e o médico nos avisava da hora do óbito. Seguiam-se, portanto, os minutos de silêncio que se faz quando nada mais precisa ser dito, porque nenhuma palavra vai devolver vida àquele pedaço morto. Nossa única órbita era em volta da mesa, pois os alimentos eram o que compartilhávamos além daquela que jazia.

Foi quando o vento noroeste veio numa lufada quente anunciando para breve a frente fria. Algumas nuvens se puseram a dançar. Observamos como num segundo tudo mudava de cor até que eu, sem me dar conta, passei a levitar. Todos me olharam assustados e porque havia vida, as palavras começaram a sair “onde é que você vai?”.

Levitando, apenas respondi “This is Major Tom to ground control, I'm stepping through the door and I’m floating in a most peculiar way". A confusão apenas aumentava quando completei “desliguem o transponder. Vamos com o vento. As nuvens tem pressa e o mundo não espera”.  Me lembro vagamente da cena de alguém se apressando para pegar um pratinho de salgados enquanto outro abraçava uma pack de cerveja. Naquele dia todos levitaram e nenhuma piada foi necessária, porque o planeta é azul e não há nada que eu possa fazer.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"Non creo en brujas"...azar o seu


Essa é só mais uma história de bruxa. Na verdade, de bruxas no plural. E praga, muitas pragas também no plural. Todas elas, pragas inofensivas, do tipo “da boca pra fora”. E sim, esse é o problema das pragas inofensivas, pois uma vez postas pra fora da boca não há mais destino desfeito.

Foi assim que a história começou. A grande bruxa – e não há que se falar em bruxa boa ou bruxa má, pois essa história é verídica e em histórias verídicas esses adjetivos se misturam e se confundem – ao descobrir que casava sua filha mais velha grávida, se encheu de mágoa. A vida já havia se encarregado de providenciar todas as rusgas que filhos mais velhos têm com os pais. Por isso, foi numa dessas brigas por motivos que hoje nem se lembram, a frase saltou do âmago pra vida “Você há de ter uma filha mais velha assim como você: teimosa, tinhosa, encrenqueira. Vai passar tudinho que estou passando agora”.

A filha mais velha da bruxa sempre dera de ombros pra praga. É fato que não se conhece o fardo de se ter filhos sem os ter. Mas, nesse contexto, a filha grávida da bruxa mexia com a antiga praga adormecida e por isso não mais escondia a apreensão. Conhecia a santa boca da mãe, e imaginava os dias de batalha que a aguardava.

Tão logo a grande bruxa se equilibrou entre a mágoa de ser a ultima a saber da gravidez precoce e a emoção de ser avó, quis saber pra quando era a primeira neta (sabia que era menina).  A princípio não era ansiedade pela vinda da bebê, mas apenas para calcular o quanto tempo havia sido enganada.

Assim que soube que viria em meados de novembro, no mais tardar primeiros dias de dezembro, iluminou sua expressão “Novembro?” e deflagrando pequena parte de seu sarcasmo “hahahaha...seu aniversário é em novembro, minha filha. Te digo apenas uma coisa: se nascer no seu dia, a praga vem em dobro”

Você que me lê e não é nada bobo já percebeu que, por se tratar de uma história de bruxas, a única certeza que se pode ter é que a menina – sim, era mesmo uma menina – nasceu no dia do aniversário de vinte e dois anos mãe. Um primeiro de novembro da década de setenta. Data que, não por acaso, é a seguinte ao dia das bruxas e famosa por ser o dia de todos os Santos.

Mas como as grandes bruxas só se tornam conhecidas assim porque são capazes de rogar as grandes pragas, a história se cumpriu a risca: veio mesmo “em dobro”. Criar aquela menina fazia a filha da bruxa se lembrar de cada impertinência, intolerância, malcriação e teimosia. Sentia pena de sua mãe e em ultima instância, pena de si mesma. A filha era terrível e quando junto da família resolvia contar as traquinagens da garota, a grande bruxa se deleitava pela praga rogada e justiça cumprida.

E foi assim, numa dessas brigas que se repetiam por conta da praga que a mãe, cansada da cruz, resolveu se encarregar de transmitir o fardo. A herança quase que inexorável, um fio condutor de transmutação genética pulou da boca como se tivesse vida própria e veio pra fora: “Você há de ter uma filha, assim como você e então passar tudo que estou passando agora”.

Eu conhecia a história, e por saber que a praga já havia se cumprido, a temia como se esperasse uma execução por injeção letal. A grande bruxa, minha avó, chancelou a transmissão e se sentiu um pouco orgulhosa da filha usar dos poderes “da boca santa”.  Conhecia meu temperamento e reconhecia como legítima a penalidade. Eu, me tornei então pura resignação.
Minha primeira gravidez foi tranquila. Quando soube que era um menino foi quase um alívio. Era um salvo conduto no meio de tanta bruxaria. Minha vó amenizou “besteira, boba...não tem praga ai não”.

Então veio a segunda gravidez. Era pra dezembro, até vir a gargalhada “hahahahaha ta aqui sua praga....e se vier no dia do seu aniversário, vem em dobro”. Gelei. Refiz os cálculos, era mesmo pra dezembro. Não viria em dobro.
Mas essas coisas que vêm da boca pra fora em família com tradição de pragas e mandingas às vezes se esbarra na literalidade. Era pra se cumprir em dobro, e em dobro se cumpriu: eu estava grávida de gêmeos.

E não, amigo leitor, esse não é o final da história de bruxaria de hoje. Desse dia em diante todas as vezes que minha avó me via, dizia “você sabe que eles nascerão no dia do seu aniversário, não é?”. Eu sorria. E sim, eu sabia.

Minha bolsa estourou num dia das bruxas com a lua mais cheia que já vi na vida. Naquele dia tomei um banho de mar e uma senhorinha, que nunca havia me visto, me disse que era o ultimo antes de ter neném. E foi. Eles esperaram, caprichosamente, que eu subisse a serra e já internada a virada da uma da manhã pra burlarem a burocracia do horário de verão. Eram legítimos filhos da praga. Praga dobrada. Dessas melhores pragas da vida.

Eles ainda são pequenos, mas as ilusões que não tardam as brigas cotidianas, conflitos de gerações comecem logo nunca existiram. Acho que estou pronta pra elas. Estou pronta também pro dia que, por vontade própria das palavras, a frase pule da minha boca e ganhe o destino hereditário e cumpra sua função: “vocês hão de ter filhos como vocês”. Tomara!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Canções Coloridas pra Caio

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Quando John Lennon morreu, Gabriel Garcia Marques publicou uma crônica linda dizendo que pela primeira vez via uma catástrofe comum a todas as gerações. Ia além, dizendo que isso era, portanto, uma vitória da poesia, pois em quarenta e oito horas não se falou de outro assunto. Disse também que o universo estava contaminado pelos Beatles, não importasse quantos anos tinham as pessoas e que ninguém passava incólume a eles. Gabô sabia do que estava falando.

E foi com esse espírito, bastante influenciada por relatos de um amigo que lembrava alguns de seus primeiros contatos com os Beatles, que resolvi dar início a experiência da iniciação. Caio tinha acabado de fazer seis anos quando baixei Yellow Submarine na internet. O filme, obviamente falado em inglês, só poderia ser visto em minha companhia. Foi assim, aconchegado no colo, que percebeu meu ato de amor por estar a ler todas as legendas com a entonação que o enredo pedia. Não queria que ele perdesse nada. Apenas me calava durante as músicas, e ele fazia o mesmo.

Caio assistiu fascinado àquela animação. Imaginem o significado que pode ter para uma criança um herói, ninguém menos que John Lennon, que usa óculos como ele. Ou então um mundo chamado de Pepperland pra alguém que tem Pimenta como sobrenome (as terras de Pimenta só podiam ser dele). Era o bem contra o mal, tal como a vida sempre nos fora explicada na infância. Assim, não precisávamos perder tempo com ilações que nos consumiriam tanto no futuro. Era apenas o amor e a música derrotando inimigos.

Ele notou que os traços da animação eram nada parecidos com os habituais desenhos de irritante perfeição gráfica e sonoridade dissonante. A combinação de cores sugeria uma sutil psicodelia. A Fábula leve, cheia de encantos perfeitamente possíveis para realidade fantástica de qualquer criança.

E, claro, a música dos Beatles.

Ele nem piscou. Gargalhou quando os Blue Menies fugiam. Adorou ver a luva azul malvada sendo derrotada por letras que ele começava a conhecer. E ao fim, ter a sua expectativa realizadas apenas porque o bem vencia o mal. Assim que o filme acabou, fiquei calada para não influenciar o julgamento. Ele suspirou e disse “é claro que eles são os melhores do mundo! Eles eram desenho que viraram uma banda”.

No conto que Gabô escreveu sobre a morte de Lennon, uma frase resume tudo “É assim: a única nostalgia em comum que a gente tem com nossos filhos são as canções dos Beatles. Cada qual com seus próprios motivos, e com uma dor diferente, como ocorre sempre com a poesia”. Pois, para nós não seria de outra maneira. Vai ser uma das nostalgias mais significativas. Foi, com o orgulho de mãe, que procurei ser aquela a levar Beatles pra vida dele só pra ser lembrada para sempre pelo feito. Mas ao contrário, acabei surpreendida.

Fiquei dias pensando o que eram humanos virando desenhos e depois voltando a serem humanos. Fazia todo sentido. Meu futuro terá, então, a mais bela nostalgia. Um garotinho com apenas seis anos explicando a razão da genialidade da banda que salvou sua terra das pimentas e um mundo da boçalidade.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Indesejável Companheira

Foi com precisão lacônica, esperada de um neurocirurgião, que o chefe da equipe médica, a quem todos se referem como professor, me explicou o procedimento. A retirada do tumor cerebral se daria em pouco mais de sete horas e a mim caberia apenas a espera por notícias. Balancei a cabeça quase em sinal de reverência, quando me estendeu sua mão enorme e sorrindo me disse “não se preocupe, vai ficar tudo bem”.

Na sala de espera tinha a sensação de estar só, até perceber a indiscreta senhora que me encarava sem a menor cerimônia. Por uns minutos a encarei de volta o que não lhe causou qualquer intimidação. Então, finalmente, tive a coragem de perguntar.

“Por que a senhora está aqui? Por favor não me diga que veio buscá-lo. Não faria o menor sentido!”

“O menor sentido? Mas se existe algum sentido pra qualquer coisa é justamente o fato de eu vir buscar vocês.”

“Eu digo sentido pelo momento. Pense em nossos três filhos. No fato de ser novo, não completou sequer os quarenta. Ouça apenas! Vou te dar as razões e você decide, combinado?”

“Prossiga” (dando de ombros).

“O mais velho acaba de fazer sete anos e há uma semana disse já não ter medo do escuro. E você bem sabe que quando uma criança perde o medo do escuro é porque entendeu que o escuro era apenas o lugar onde se escondem os medos e que, portanto, começa a enxergá-los de perto, quase tocando tudo aquilo que o incomoda. Conceda tempo pra que ele possa ter a chance de entender um pouco quem você é, antes de aparecer assim na vida dele.”

“Entender quem sou? Coisa rara entre vocês...”

“Me deixa terminar. Tem os gêmeos que ainda nem fizeram três anos. É nessa idade que a gente grava as primeiras memórias da infância, as mesmas que são as últimas a apagar, quando envelhecemos ou temos Alzheimer. Mas, por outro lado, para se lembrar do pai, terão de recorrer aos outros e colher fragmentos de sua estada aqui, até que consigam um esboço do homem que um dia foi. Vão precisar buscar referências em fotos, pra descobrir a identidade dos próprios traços, semelhanças em tons de pele ou cor de cabelo. Mas nunca saberão se aquele jeitão de andar era mesmo igual o do pai.”

“Pois é o que sempre digo: a vida pode ser muito dura, às vezes”

“Mas é esse meu ponto. Não precisa ser dura...não agora. Espere que envelheça, que crie os filhos, que tenha chance de amar mais, se redimir, se refazer, se reencontrar. Volte depois. Honestamente, ele esteve presente em minha vida por quase metade do tempo de minha existência. Acho que não sei viver num mundo onde ele não existe. Por favor, vá embora.”

“’Vá embora’? O problema de vocês é que não me enxergam, literalmente. ‘Volte depois’? Estou sempre aqui. Estou olhando pra vocês diretamente nos olhos desde que nasceram. Aliás, essa foi a única condição para que nascessem. Mas vocês optam por fingir que não estou aqui, exigindo de vocês o tempo todo que esgotem suas possibilidades em vida, porque, além delas, vocês tem apenas a mim. E, quando na infância, idade em que se perde o medo do escuro vocês aprendem a não me ver e escolhem uma realidade em que eu não existo. Apenas pela idéia de viverem estáveis e eternos. Sem riscos.”

“Não sei o que dizer....mas e agora? Por que eu te vejo aqui?”

“Todos me vêem em hospitais e cemitérios. Sou óbvia demais em certos lugares e situações. Minha figura é despertada apoteoticamente pela iminência da minha chegada nesse plano irreal que vocês criaram. Repito, estou aqui todo o tempo, mas você me vê agora porque só agora acredita que posso levá-lo...ou levar você, quem sabe?”

“Você sabe e está aí a me torturar”

“Eu não sou castigo. Tolos são vocês que me impingiram tal pecha. E digo mais, não sei a hora de ir, não sei a que horas irei levá-los. A escolha cabe a vocês, mas é mais profundo do que se possa alcançar...ouvi atentamente seus argumentos, mas infelizmente não cabe a mim decidir. Executo aquilo que foi acordado por vocês. Cada um sabe sua hora. Relaxe e aprenda a conviver com minha existência. Estou aqui, não me ignore, porém não seja escrava do meu jugo”

“Então, faço o que agora?”

“Você não ouviu o professor? Não há nada a fazer. Apenas sente e espere. Vem, tem um lugar ao meu lado. Eu posso segurar na sua mão se quiser. Não tenha medo. Repito, estarei sempre aqui pra lhe fazer companhia...até o fim!”





Sala de espera favorita - Asu Indonésia
   

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

El corredor intrépido sin equipaje



Há um tempo li que para correr uma maratona, uma mulher elegeu quarenta e duas pessoas importantes pra pensar a cada quilômetro. Focava a concentração para não ouvir as dores do corpo. Desde então, faço quase o mesmo. Seleciono alguns queridos e outros desafetos parciais e dialogo com eles no período de um quilômetro pra cada. Também reservo algumas passadas pra não pensar em nada, fechar os olhos e desconectar da vida.


Não seria diferente na meia maratona de Buenos Aires. Eram quinze escolhidos que carregaria comigo, simularia diálogos, ouviria conselhos, diria alguns quilos de frases engasgadas, resolveria questões, encerraria pontos controvertidos e cruzaria feliz o pórtico de chegada. Me sobrariam seis quilômetros e tantos metros pra não pensar em ninguém ou em alguém que quisesse aparecer de surpresa.

Mas algo diferente aconteceu. Ainda na concentração, minutos antes da largada, um homem circunspecto, calmo e de postura ereta se mantinha de olhos fechados. O som era alto, gritos e abraços de pessoas que nem deveriam se conhecer, energia e adrenalina pura. Ele, impassível.

Largada dada, gritos, pulos, danças e o homem apenas abrira os olhos. Mirou um ponto no infinito e se posicionou a minha frente, mais a direita. Foi então que pude ler seu nome na camiseta personalizada: “Martin 76 años”.

Meu primeiro quilômetro reservado ao nada se converteu naquele senhor. Sempre me emociona quando vejo pessoas velhas correndo, porque projeto meu prazer em longo prazo fingindo ser algo que o tempo nunca vai me limitar.

Certeza o homem tinha muitos quilômetros percorridos, muitas provas no currículo. Muitos diálogos com fantasmas. Coincidentemente corríamos no mesmo ritmo, e a cada amigo que vinha me visitar na intermitência dos meus devaneios eu fazia questão de mostrar Martin, o intrépido.

Buenos Aires linda se estendendo aos meus pés, o sol nascendo em meio a névoa fria e um cardume de humanos se deslocando juntos, na mesma direção, migrando do nada pra lugar algum. A sensação de que estávamos todos certos, progredindo, evoluindo. Meus diálogos fluindo. Mas de tempos em tempos procurava entre todas aquelas camisetas azuis o meu “coelho”, Martin. Ele estava sempre ali, quase que segurando minha mão e mostrando os segredos do charme portenho.

E não tardou, vieram os quilômetros difíceis. Aqueles que reservo às conversas tortuosas, às palavras cuja caligrafia tem de ser redonda pra não surgirem ainda mais desvios de rotas. Carrego comigo quem acho que mereça ainda estar, apesar dos nós que foram se interpondo. Me dou ao trabalho pra liberar as mágoas e conservar o que um dia fluía sem peso.
Não à toa olhava as expressões dos que estavam ao meu lado. Eram cansados e o esforço adicional visível. Era mesmo o momento dos diálogos difíceis.  Menos para Martin, que corria com a mesma expressão firme ao meu lado. Só não desconfiava de sua condição humana porque transpirava, pois na fluência do décimo quarto quilômetro se mantinha ereto, altivo, resoluto. Meu intrépido Martin.

Foi então que percebi algo óbvio. Ele era o único a correr leve. Não mantinha diálogos. Ele era apenas o que respirava. Não sei se naquela altura da vida já tivesse desatado todos os nós, mas ali me parecia que ao correr ele fora deixando tudo pelo caminho.

Esse espelhos que eram os outros – aquilo que um dia Sartre chamou de inferno – e o cuidado que temos para não quebra-los e nos manter aprazível quando nos olhamos era o peso estampado nos músculos contorcidos. No meu músculo, certamente. A música acelerou. Respirei profundamente. Decidi deixar meus diálogos pela “carretera”. Resolvi ali que não carregaria mais o que faz mal, o que faz sofrer.

Fui deixando a bagagem num ato consciente e numa alegoria que de tão real se tornou física. Senti meu corpo acelerar sem as dores que poderiam me impedir. Meu ritmo aumentou e fui passando corredores nos últimos cinco quilometro. Foi quando vi Martin, que como um soldado se manteve fiel a sua velocidade média, ficando para trás. Por um segundo me senti abandonando um companheiro à própria sorte numa estrada sem beira.

Mas Martin 76 años entenderia. A lição era o desapego, ainda que levasse comigo a placidez de sua conduta. Eu bem sei que ainda tenho anos de diálogos a se resolverem internamente até, quem sabe com a sorte da vida, chegue aos 76 apta a correr e ignorar por escolha o mundo que nos assola. Mas quis apenas o gosto da sensação. A sensação de não ter espelhos, infernos ou os outros, quem quer que fossem eles.

Me despedi mentalmente de meu amigo de jornada e me embrenhei entre o cardume azul.

Leve, fluida e conscientemente intrépida!







OBS.:Tirei fotos aleatórias para captar fragmentos da largada. Minha felicidade foi completa quando vi que capturei Martin, meu intrépido corredor. 
Tentei procurá-lo nas listas de corredores mas não o achei. Não sei sua colocação - e isso nem importa. Sei, com toda certeza, que terminou.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Saíndo do Útero


Sempre achei que passar dos dez quilômetros para a meia maratona eu teria de fazer um esforço sobre-humano.  Achava que não teria joelho ou que acabaria o fôlego. No fundo sabia que se tratava apenas de um detalhe: os dez quilômetros me eram confortáveis e essa distância eu dominava.

Talvez se acomodar seja a mais fácil das realizações. Não requer prática tampouco habilidade. Basta achar que as coisas estão “boazinhas”, se conformar com os desconfortos e botar na cara a máscara de paisagem. Funciona! E engana-se quem acha que funciona por apenas pouco tempo.

Sim é um mea culpa. Talvez eu tenha demorado um pouco demais pra me lançar ao desafio. Tive algumas lesões, tenho um milhão de compromissos, mas no fundo há uma vozinha que advoga pra acomodação.

Então quando minha vida do passou a virar do avesso a cada três dias e eu teimava com soluções que caminhavam em círculos, me atirei ao improvável. Pensei que se me inscrevesse pra uma prova e gastasse o dinheiro que não tinha seria como apontar um rifle pro meu peito. Exigiria assim uma satisfação do comodismo e dessa sua advogadinha de quinta.

Pra isso, procurei por uma prova que acontecesse a tempo de estar pronta, baseando-se em cálculos, planilhas de treino e intuição. A prova também teria que despertar mais que a vontade de correr.

Então, habemus Buenos Aires. Estaria longe, aproveitaria o feriado num tempo razoável e o dinheiro gasto me impediria de desistir da empreitada. Inscrição feita, rifle engatilhado.

Por sorte, um amigo atleta entendeu onde morava a entrave. Assim que montei minha planilha, ele se ofereceu pra fazer comigo o primeiro treino longo. Achou justa a meta de quinze quilômetros.

Corremos toda a orla do Guarujá e quando atingimos a meta de sete quilômetros e meio acenei a ele que poderíamos voltar. “vamos mais um pouquinho. Viramos no oitavo quilômetro”. Oito quilômetros, oito e meio, quase dando nove e estávamos no fim da linha. Só nos restava voltar. No décimo quilômetro sugeri diminuir o ritmo. “Você está cansada?” acenei que não, porque não estava. Continuamos.

No décimo terceiro quilômetro minhas pernas pesaram, cansaço gritou e só tinha o fôlego. Pedi pra desacelerar e ouvi “Não são suas pernas, é apenas a sua cabeça tentando dizer que você passou do limite habitual. Essa dor não existe. É só o medo de arriscar. Solta o corpo, ouça a música e o controle é seu”.

Na hora me pareceu sem sentido, mas a música era boa e só pensava na respiração. Contava inspira/expira como se fosse meu ofício diário, meu ganha pão. Ouvi o aplicativo dizer “quatorze quilômetros” e antes que percebesse ouvi “quatorze quilômetros e meio”. E então não sentia mais nada. As pernas, o corpo, o cansaço, nada. A voz que dizia para, morreu numa das passadas. Nem vi quando a deixei cair. Definitivamente tinha o controle.

Chegando ao ponto de partida, acumulávamos dezessete quilômetros e meio. “você aguenta seguir até os 21?”. Sim, eu aguentava. Eram apenas mais quatro, o mundo era meu. “Para, então. Agora você sabe que é capaz e tem dois meses pra botar esses quatro quilômetros na conta.”

Não é tão fácil quanto estou fazendo parecer, embora seja mais simples do que se poderia supor. Depende de quantos rifles e quantas vozes estão tentando tomar a torre de controle. É fato que ainda sinto as dores e o cansaço do quilômetro treze quando estou passando por ele, mas já negocio em outros termos. Sabemos quem manda e quem obedece.

Sigo correndo e no fundo é apenas isso que importa. O processo não termina nunca. A linha de chegada é apenas o momento de reflexão para se lançar a uma nova meta. E a nova meta é apenas a deixa para se lançar pra longe desse útero quentinho que é a acomodação.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os bons conselhos da gravidez



Ah a gravidez!

Aquele momento lindo, mágico que você sente dores no ciático, estrias arregaçando seu corpo, peito quase batendo no queixo, andar de pata choca, inchaços, enjoos, refluxos, fome, falta de ar.

Você tem sono quando precisa estar acordada, insônia quando podia estar dormindo, necessidade do xixi quando você acabou de fazer, e com sorte (muita sorte) várias pessoas dispostas a dar suporte, amor, carinho e, claro, “conselhos”.

Os conselhos são a melhor parte, indiscutivelmente. Dos proféticos aos científicos, todo mundo tem algo a dizer sobre o que se deve ou não fazer na gravidez. Mas o que faz do conselho a parte mais legal é que o corpo feminino, acostumado as pataquadas contadas ao longo dos séculos, deu um jeito de bagunçar os hormônios e deixa-los com um grau quase minúsculo de tolerância para poder defender nossa sanidade da palavra alheia.

Assim, quando sua tia sorri passando a mão em sua barriga dizendo que você sente azias porque seu neném é cabeludo, reações químicas ocorrem em frações de segundos e uma resposta sarcástica sobe pelo esôfago em velocidade de cruzeiro para ganhar o mundo. Tem grávida que fala. Tem grávida que não.

Sempre fui dessas que fala.

Além de expurgar a grosseria reprimida, confesso que abusava do sarcasmo criativo. A cada sugestão à gravidez eu apresentava outras soluções em forma de métodos ou rezas alternativas para todos terem certeza de que falávamos sobre absurdos aceitos em apenas alguma parte de universos paralelos.

E conforme a barriga ia crescendo, minha habilidade para respostas mais cretinas e afiadas ia se tornando um talento inexorável. Pra minha sorte o axioma de que não se bate em grávidas se mostrou eficaz. E, assim não havia conselho que passasse impune.

“Olha, nunca deixe sua barriga descoberta, o neném pode sentir frio”
“ah sim, mas o padre da minha igreja disse que era bom resfriar o local mesmo, pois se esta for uma alma que veio do inferno, vai diminuir muito as chances de ser um filhote de demônio”.

“Laura, nunca guarde a chave de casa no peito, ai no sutian enquanto estiver grávida, senão seu filho nasce com o lábio cortado – do tipo leporino”
“Pois é, estamos justamente providenciando pra que isso aconteça. Não sei se você sabe, mas há parentes distantes do meu marido que descendem dos lagartos. Queremos homenageá-los”

“Nossa, sua barriga assim redonda! Aposto que é menina”
“Então...é um menino. Mas ele adora quando escuto Elton John e George Michael. Pode ser que você tenha razão”

“Ual!! Você tem um menino e está grávida de gêmeos? O que vai fazer agora?”
“Ah, simples, vamos esperar nascer e levar pra casa somente o mais bonitinho”

“Ouvi dizer que as mães que ouvem os bebês chorando dentro da barriga terão sempre uma ligação muito forte com os filhos. Você já ouviu seu filho chorar?”
“Chorar ainda não, mas hoje esse lazarento me acordou às cinco horas da manhã recitando lusíadas de camões.”

“Você tem comido bacalhau? Seu médico já deve ter dito a você que deve comer bacalhau todos os dias pro seu peito encher de leite, né?”
“Ah sim, disse. Mas ele é de uma corrente nova. Bacalhau por sêmen. Estudos comprovam que o sêmen do pai do bebe, se engolido uma hora antes do almoço, costuma ser mais eficaz em 78% dos casos para a produção. Mas se o sêmen for congelado, ajuda ainda mais no volume armazenado. Por isso já deixamos congelados no freezer uns vinte potinhos. Mas não se preocupe, esse sorvete que está tomando não estava perto dos potes...eu acho.”

A verdade é simples. Depois de respostas como essas, raras são as chances da conversa engatar segunda marcha para novos conselhos. E nessa hora sempre chega aquele terceiro elemento que faz cara complacente e diz “coitada-ela-está-possuída-pelos-hormônios” enquanto você nem se esforça para sua cara demoníaca ganha contornos épicos de Jack Nicholson em O Iluminado.

Até hoje, quando me escapam sarcasmos mais afiados, costumo colocar a culpa nos hormônios da gravidez. Me utilizo do benefício da gestação gemelar e da alta incidência hormonal da época para dizer que 87,25% das mulheres que tiveram dois no bucho nunca voltaram ao normal.

As pessoas costumam acreditar em qualquer tese que tenha como justificativa os hormônios, fatos que trazem porcentagens como amostra da realidade, toda e qualquer merda encapsulada no hemisfério norte e coisas racionais como “A mulher prenha deve andar, pelo menos uma vez por semana, como um quadrúpede no interior de seu quarto. É que de boa sorte pro neném”.

Ok. Podem culpar meu pragmatismo, mas acredito apenas na capacidade infinita da estupidez humana, na incerteza dos dias que me sucedem e na certeza da morte que me aguarda. Obviamente que também acredito em sarcasmos, ácaros e na cara do Jack Torrance para afastar as pessoas de boa alma com bons conselhos.